quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Eduardo García

TINHA QUE ENCONTRÁ-LO NUM POEMA
Saiu não sei de onde. Ia descalço,
Com o rosto manchado como então,
O jeito de um pirata diminuto,
O sorriso torto, e nos olhos
A intacta malícia.
                           Conseguiu reconhecer-me
Apesar das rugas no meu rosto,
Apesar de meu aspecto improcedente,
Meu disfarce de adulto, e a voz grave.
“Onde estavas?  - indagou. Neste verão
Sentimos tua falta. Junto ao rio
Encontramos os restos de um naufrágio.
Vamos cavar juntos. Na outra margem
Cavaleiros vigiam na emboscada.”
Tive que convencê-lo que não,
Que estava ali só por casualidade.
- Como iria acompanhá-lo
Com este corpo enorme e preguiçoso? -.
Ali nos despedimos, não sem antes
Enviar lembranças para todos.
Deixei-o em seu verão inesgotável.

Eduardo García, Antologia Pessoal, Brasília: Ed. Thesaurus, 2011, p. 39, trad. Antonio Miranda

Nasceu em São Paulo em 1965, filho de espanhóis. Viveu a sua primeira infância entre duas línguas. Permanece no Brasil até os sete anos, idade em que sua família resolve voltar a Espanha. Passa a viver em Madrid, durante a adolescência e a primeira juventude. Estuda Filosofía, cursando a sua especialidade em Pensamento Estético. Professor de Filosofía, mora em Córdoba desde o ano 1991. Tem dupla nacionalidade: espanhola e brasileira. 

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