domingo, 2 de setembro de 2012

Miodrag Pávlovitch

INVERNO DE CONCEITOS ANTIGOS
Hoje o sol varou o tempo frio, porém
cortinas se erguem, resta a geada, o vento
balouça, brotam cristas de fumaça
ao sul, acordamos depois de muito tempo
sem crimes cometidos em sonho, mas não
sem o sentimento de culpa, o olhar vagueia
incapaz de centrar-se em algo interior,
não é o momento de colocar a questão da alma,
estamos distantes do som que confirma a presença da alma,
o profano ocupou muitos pontos eminentes,
será que isso significa que a santidade se coalhou
que em outro lugar qualquer ocupou colônias
em continente em que não temos embaixador
e o que mais se pode tomar aos antigos conceitos.
O olhar descobre as estações do ano menos os prismas
cujos cortes seriam reflexo de um outro mundo
precedido de virgens carregadas de luz
e conhecimento teológico que não se pode negar.
Onde está agora o lugar do canto do galo
para o início do banquete na floresta na presença de gigantes
selvagens famintos exilados do tempo
que somente confiam naquela hospitalidade de outrora
quando Abraão e a mulher receberam os anjos.
O espírito doméstico ecoa o vazio
e nem mesmo assim pode se afirmar que inexista para sempre 
talvez tenha permanecido apenas o pressentimento 
de que cada um de nós esteve no mundo da orgia e ficou 
enredado (em sua coroa) também com a respiração monocorde dela
ainda que não se tenha demonstrado a imobilidade
daquilo que se denominava “ser” nem é
certo que o espírito paire acima de nós como um polvo.
O vazio em que conceitos antigos habitam é visível
e cada vazio que deixaram é túmulo
sobre o qual o homem reza pela ressurreição geral.

[Miodrag Pávlovitch, Poetas do Mundo, Bosque da Maldição, Seleção, introdução e traduçãoAleksandar Jovanovic, Brasília: Editora UNB, 2003, p. 27-29]

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