quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Verônica de Aragão

MOBILIÁRIO
Como se saído de uma ampulheta
o pó cotidianamente se derrama
sobre os móveis.

E a mulher, com mão de Sancho,
recolhe com pano umedecido
os vestígios do tempo
na serenidade da casa.

Não há nada de eterno sob a razão do tempo.

E o que é a realidade
se não a tentativa frequente
de recolher o pó caído da ampulheta
e depositado na mobília;
se não o polimento contínuo das coisas
para que a imagem delas fique intacta;
se não o movimento incessante da mão
até o esgotamento
— até que outra mão substitua a anterior
e sob sua força se construa uma nova realidade
tão irreal quanto a primeira. 

Como se fosse possível eternizar o amor
que também se esvai, tão quanto a areia.

In: Roteiro da Poesia Brasileira - anos 90, seleção e prefácio Paulo Ferraz, São Paulo: Global, 2011, pp. 160-161.

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