quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Cláudio Daniel


A ARTE DA POESIA
Os poetas em Lizzey são todos cegos.
Caminham apoiados em bengalas em
forma de serpente e são guiados por
cães que lhes mordem as pernas e
depois lambem as feridas. Ninguém
pode tocá-los, nem mesmo ficar à sua
sombra ou dirigir-lhes a palavra sem
sujar-se. Eles se arrastam pelas ruas
declamando seus romances, cuspindo
as sílabas entre caretas de suas bocas
tortas. Quando um poeta consegue
causar êxtase à multidão, às vezes pela
pronúncia de uma única palavra, todos
se calam e ficam como sonâmbulos.
Depois, como recompensa, os habi-
tantes de Lizzey juntam paus e pedras
e apedrejam o rapsodo. O seu corpo,
então, é disputado com avidez pelas
feras, que nada sabem de poesia.

(Inédito)

Sobre Cláudio Daniel

Fonte: Poetas na Biblioteca Antologia, São Paulo: Fundação Memorial da América Latina, 2001, p. 75

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