Lembrança, I
e o mar não mais existe
Eu sozinho com uma flauta nas mãos;
a noite deserta a lua no minguante
e a terra a recender da última chuva.
Murmurei: "Onde quer que a toque, a lembrança me dói,
céu há pouco, o mar já não existe;
o que matam de dia, com carretas o esvaziam atrás do
[monte."
Meus dedos brincavam distraídos com a flauta
que um velho pastor me deu porque lhe desejei boa-tarde;
os outros aboliram cumprimentos:
despertam, barbeiam-se e começam a matança diária,
como se poda ou se opera, metodicamente, sem paixão;
a dor é um cadáver como Pátroclo e ninguém comete enganos.
Pensei em tocar uma ária mas tive vergonha das pessoas
que me vêem além da noite dentro da minha luz tecida pelos corpos vivos, pelos corações desnudos e pelo amor que pertence tanto às Fúrias
como ao homem e à pedra e à água e à erva
e ao bicho que olha a morte de frente quando ela o vem
[buscar.
Foi assim que avancei pela vereda escura
de volta ao meu jardim onde cavei um buraco e sepultei a
[flauta
e tornei a murmurar: "Um dia haverá ressurreição,
quando na primavera as árvores brilharem, a rósea manhã
[irá resplandecer,
voltará o mar e outra vez Afrodite surgirá das ondas;
Nós somos a semente que morre." E entrei na minha casa
[vazia.
In Poemas Giorgos Seféris, São Paulo: Nova Alexandria, 1995, pp. 140-141, sel., trad. e notas de José Paulo Paes.
Nenhum comentário:
Postar um comentário