domingo, 30 de dezembro de 2012

Hélio Pellegrino

O PASTOR DO ANO NOVO
Entre o boi e o burro. Em meio ao feno, numa gruta onde os animais se recolhem, para abrigar-se da noite. Num espaço de rocha, cavado no coração da matéria, aí nasceu o menino, soberano do tempo e, por isto, pastor do Ano Novo. Sua mãe é jovem, cheia de graça, e se chama Maria. O pai é o carpinteiro José. O boi, o burro, o feno, a pedra escavada, a manjedoura, a estrela, com seu rastro de fogo, compõem um elenco elementar de presenças — resumo do Cosmo.

Há de tudo, em torno do menino que acabou de nascer. A reentrância da pedra, muda de um silêncio longuíssimo. A prestança do feno, na humildade de sua serventia. A manjedoura talhada na madeira, afeiçoadamente. O boi, o burro, construções de carne e paciência, ruminando o mistério. E o pai. A mãe. Os altos presságios, crivados de ansiedade. A dor da carne dilacerada, o esforço ofegante e antiquíssimo para dar à luz do mundo uma criança. E a criança que irrompe das entranhas sangrentas, o salto da eternidade para o tempo, do esquecimento para à memória, a luta, a cruz.

Uma criança nasceu em Belém e instaurou os tempos novos — Ano Novo. A criança tornou-se homem e tomou-se Deus. Seus pés inventaram o Caminho. Sua boca proferiu a Verdade. Seu peito abrasou-se do amor que é Vida, em perfeita abundância. Jesus Cristo, Senhor nosso, dono do gesto exemplar, luz de Deus feita carne. O que subidamente transfigura — e transverbera — a humana condição. Somos deuses.

Crucificadamente deuses. Na carência e na morte. O Terceiro Mundo e, em particular, o Nordeste brasileiro, que o digam. Nascem crianças, crucificadamente. O egoísmo dos ricos — classes e nações — as crucifica, a cada dia, pelo mundo afora. A fome se expande, a miséria pulula, o sacrifício dos inocentes fecha o círculo homicida, segundo por segundo. A iniquidade e a injustiça dão sinais de si, como o pulsar de um coração de pedra. Por isto é que o Cristo nasceu, para nos salvar: ossos, músculos, nervos, pão e vinho. Que persuasiva — e infinita — paciência, ano após ano, nasce e renasce no Natal — e no Ano Novo. Até o fim dos tempos, na roda circular do eterno retorno, surgirá o Cristo, cercado de forças elementares, para testemunhar a dignidade e os direitos da vida — e do homem. A essa teimosia sublime damos o nome de Ressurreição da Carne.

Há um Cristo da palavra, da pregação e do milagre, pescador de peixes e de homens. Há um Cristo que morre na cruz para morrer, por nós, a morte, ensinando-nos que o amor vence o derradeiro lance, e que é possível viver — e morrer — para os outros, pelos outros. Há um Cristo que nos diz: Ama o Teu Próximo Como a Ti Mesmo, Esta é a regra santa —difícil regra. Pois sermos deuses significa, não a dominância da soberbia e da grandeza, mas a vitória da humildade. Deus é quem hospeda o Próximo, no espaço de seus braços abertos. O Próximo é o mistério luxuoso diante do qual devo apagar-me, para que seu rosto resplandeça. É esta a excentricidade que o Cristo veio ensinar ao mundo. Só consigo ganhar-me, perdendo-me, só amealho riqueza, doando-a, só conquisto o meu nome, nomeando, chamando, clamando, consentindo no ser.

Deus é discreto. Deus é silêncio e vazio. Deus é liberdade. Cristo é uma imensa árvore copada, sem copa e sem tronco, dentro de cujo ardente perfil vazado todas as coisas cabem. Tudo e todos. Somos todos convidados para o banquete. Cristo, à cabeceira da mesa, nos convoca para o ágape. O pão, o vinho, a alegre — e leve — embriaguez apolínea. Cristo Apolo, elegantíssimo na sua túnica, pregando pelos campos. As ervas do caminho e os lírios das ravinas o compreenderam. Nós, humanos, temos ouvido mais duro.

Deus é paciente, o tempo divino é todo o tempo e, portanto, abolição do tempo, enquanto sudário da morte. Deus se mistura ao nosso barro, nasce, vive, morre e ressuscita conosco. O companheiro. Cristo companheiro, acompanhante, acompanhado. O amigo, o viandante, o peregrino, senhor do Verbo. Cristo é a juventude do mundo. Sua esperança. Sua tenaz — terna, eterna — esperança. Lâmina de acerados açúcares, vulnerante e irresistível.

Somos fuliginosos, perplexos, desgarrados e tristes. Somos seres humanos, transmudados por Cristo, homem divino. Somos bichos da terra, tão pequenos, mas o fogo do amor de Deus mora em nós. Por isto, temos a possibilidade da louca alegria. Cristo bailarino. Cristo dançarino. O mais próximo Próximo. Ali, na esquina, está ele, e nos olha. Naquele bar, naquele beco, naquela masmorra, hospital ou cortiço. Onde a carne sofre, aí está o Cristo, crucificado. Onde a carne ama, aí está o Cristo, glorificado. Onde está o homem, aí está o Cristo, suprema possibilidade do humano. Aqui.

Hoje é véspera do Ano-Novo, reedição da espera — e da esperança — do Natal. As duas festas participam de um mesmo ciclo, rito de natividade pelo qual reinventamos o futuro. Falemos, portanto, da Criança Eterna, semente de sol que nasce e renasce — pelos milênios afora. O boi, o burro, o feno, a manjedoura, a gruta, o pai, a mãe, a estrela. Os espaços infinitos. A tenra doçura da noite. O sofrimento da carne que, nesse cenário arquetípico, dá à luz do mundo a Luz do mundo. Toda criança que nasce é luz do mundo, e destampa o Natal — e o Ano-Novo. Vamos buscá-la perto, ao alcance da mão. Nesse momento, uma criança acaba de nascer. Dezenas, centenas, milhares de crianças acabam de nascer. Os frutos dourados do prazer da carne, dessa carne a quem a Criança Eterna investiu de uma dignidade infinita. O corpo, a carne, a comida, o concreto vigor do abraço, onde Deus fulge. Fúlgida luz. Tudo é uma beleza.

Beleza que se faz. Deus em nós — conosco — se constroi, doridamente , com as mãos, ferramentas, disciplinada carpintaria. O operário José. Maria, dona-de-casa. O aprendiz de oficial, menino Jesus, trabalha a madeira, fabrica seus barcos, seus arcos. A flor. O fruto. A criança. A grande empreitada cósmica se encorpando, complexa, através de milhões, bilhões, trilhões de anos. Toda criança é um deus que nasce. Tecido, tapete trançado, espessura de carne feita de tantos, tantos fios. Tantas fibras: luz, treva, travo, espaço, tempo, energia, matéria, matemáticas — a palavra. O Cristo que nasce no Natal e no Ano-Novo se repete — inesgotável — em qualquer criança que chega ao mundo. Deus minúsculo que explode bendito fruto de vosso ventre, ave, Maria.

Somos deuses, por decreto de uma criança que nasce. Carreguemo-la conosco — nosso centro. Entre quedas, desistências, covardias e grandezas, somos deuses. Há uma criança eterna em nós, que a cada dia quer nascer. A insofrida antemanhã. Que a cada momento a ajudemos. A incessante maiêutica. O parto, na agonia do caminho, da verdade e da vida. Por mão de mestre Jesus, carpinteiro, companheiro, fiador da justiça no mundo. Lumen.

(31.12.86)

[In A BURRICE DO DEMÔNIO, Rio de Janeiro: Rocco, 1988, pp. 129-132]

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