domingo, 9 de dezembro de 2012

Maria Gabriela Llansol

Passo V

É
     por mais que eu escreva, que eu revele, por tentativas, as mutações e os matizes do nosso gênero interior, através do qual acedemos ao país mais doloroso de todos nós, homens, animais, plantas, países governados em torno de seus Estados, aflige-me sempre a estreiteza do meu espírito, e a angústia da minha falta de conhecimentos,
     ou de memória vossa que os substitua; as mulheres são mulheres mesmo quando escrevem, e os homens são homens mesmo quando governam, o que se vê a olho nu. Governar um livro foi o que eu mais desejei, ficando sempre aquém; sou um corpo de ver, e não agir; sou um cosmos de meditar.
Narro, e volto à narração,
vivo os meus meses reflectida
numa móvel amplitude,
em que já participam vida e morte
(a clara superfície da treva eterna que ilumino),
sem engano, sem ilusão, sem ódio. elas, Clara e
Lúcia, caminhavam nas vertentes da Arrábida aspirando o mar,
 Marie Laurencin
e eu antevia a sua entrada na gruta
(delas próprias e do mar),
que se abria em recantos sempre inesperados,
onde havia homens que usavam burel
os hábitos —, e tinham rostos semelhantes à primeira
vista
e que, depois,
avaliados à luz das preciosidades que deles se podia
trazer,
e que nós, com risco de esgotar nossos recursos, pagávamos às recoveiras a peso de ouro,
se revelavam profundamente singulares. Sem
terem um nome de família consideravam-se cristãs baptizadas Clara e Lúcia, e transportavam cargas ou bagagens de uma povoação a outra. Na nossa comunidade de beguinas (livre dos princípios da ortodoxia) eram tomadas por visitantes, mensageiras, caminhantes, e usurárias. Mas o serviço que nos prestaram foi inestimável. Elas vêem, à entrada da gruta que desce para a profundidade do solo, uma fogueira acesa que aquece os monges, três ou quatro sentados, e um de pé; eu, que as acompanho por esta narrativa, vejo labaredas, um ramo de chamas, e reconheço, nas mãos dos monges, o caminho que as há-de conduzir a Luís M., no declive penetrável da serra. Ponho-me a imaginar atentamente o seu rosto, enquanto Clara e Lúcia tiram dos alforges do burro as toalhas com que hão-de cobrir os rochedos escritos que ele nos envia. Debaixo das toalhas, os rochedos pesam e tornam-se invisíveis, o burro abandonando-se, percorre o itinerário com a sua própria lentidão e se alguém pergunta de que vai o burro, e de que vão elas próprias tão carregadas, eu sugiro-lhes que sorriam mansamente.

Estamos sós, só nós — disse Coração do Urso, no princípio do Outono que ela desejaria passar em Portugal. Ela já está no cabo Espichei mas não sei por que melancolia humana se julga longe; eu sou o seu último companheiro e protejo agora, às ocultas, o nascimento de dois seres. Nesta caverna onde eu, habituado ao frio, estou à-vontade, eles escorrem ainda dos muros do nascimento e hesitam face ao quente conteúdo que os há-de levar; é uma forma de calor que brotada nela a mantém em vida. Eu sou o último companheiro destes dias tão atravessados pelas correntes do exílio que te peço,
Margarida,
os tomes serenamente por uma época de metamorfose divina.
Eu, Coração de Urso, tenho um coração.
Brancura e Simbular, se nascerem,
escrevem  desdobram como um manto    descobrem
a tua vida.

Fragmento de Causa Amante, Relógio D´ Água, 1984, pp. 27-29

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