segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Maria Gabriela Llansol

Herbais, 3 de dezembro de 1982

Uma outra ferida, um outro luto de animais, ou plantas, desponta no horizonte:
os nossos vizinhos mais recentes desejam comprar o jardim separado que, pelo nosso contrato, está incluído no arrendamento comercial da Casa, e dependências; o Augusto vai contestar, mas eu admito que ganhem o litigio e vejo que, neste ambiente dubitativo se enraíza a partida definitiva de Herbais e que, para o futuro, eu não quererei mais plantar nenhum arbusto, ou árvore para mim; sempre que o nosso espaço, ou seio, é ameaçado, ou cobiçado, as plantas, ou os animais, são as vítimas; presumo que se fecha uma fase - a fase da imobilidade —, e que nos anos próximos seremos marcados com o signo da passagem por lugares provisórios;

esta manhã estava, no entanto, inconsolável por abandonar à sua sorte os arbustos, quem me diz que não vão cortá-los, ou deslocá-los, dar-lhes uma importância secundária e um destino de joguetes do homem; e eu seria privada do horizonte pontiagudo daquela pouca terra em forma de proa; durante o sono desta noite admitira que era vizinha das raízes compadecentes de Prunus Triloba e, mais tarde, explicando a mim mesma o prosseguimento de Lisboaleipzig, e o método que ia seguir em tal trabalho, tive o sentimento de que o jardim que estava a perder, e em que eu no verão passado criara geometrias reflectidas em arbustos, se havia de transformar em território, ou seio de um livro. O seio de um livro ninguém o pode dominar ou destruir, nem eliminar por crueldade, ou cobiça. 

Herbais, 6 de dezembro de 1982

Tem dois anos e meio e é de uma imensa beleza; comparando-o ao espaço, é mais espaço do que o espaço; os seus arbustos, e árvores, obedecem a uma plantação irregular mas têm uma ordem; o inverno, dominando pela geada as ervas do chão, faz sobressair a sua parte aérea que ressoa nas minhas costas quando volto para casa.

Os ladrões de jardins, que fazem do jardim? O jardim fica cego para eles, ou são eles que fecham os olhos? No dia em que a terra for trocada por cobiça, para que existirão páginas para este livro?
levo comida à gata preta, e vou-me embora. Regressso. Ela assusta-se, mas logo sossega.
- Não é nada — falo-lhe. — É o nada que eu sou.

Um falcão no Punho - Diário I, Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2011, pp. 94-95.

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