domingo, 23 de dezembro de 2012

Mariana Ianelli

UMA FLOR ENTRE AS PÁGINAS

E espalha os odores pela casa onde habitas, meu Deus. (Etty Hillesum)

Olhai o jasmim como cresce 
Entre o muro lamacento e o telhado,
Como continua a florir no meio dos campos gelados - 

Nem o lírio dos Evangelhos 
Nem a rosa branca de Rilke
Em todo o seu esplendor se vestiu como um deles.

O Amor e Depois, São Paulo: Ed. Iluminuras, 2012, p. 89

CAMPO DE CASSIANAS
Eterna a tua juventude sobre a mesa 
Que abdicou do triunfo sem orgulho 
De todos nós que sobrevivemos 
A pelo menos um desconsolo mortal.

Eterno o teu corpo adolescente 
Se oferecendo num banquete divino,
Sendo envolvido, devorado lentamente,
Atraído por uma forma indestrutível de virtude.

Na tua imagem um sem-fim de sutilezas 
Que não se apagam por falta de emoção,
Senão o contrário, que abrasam, que fustigam 
Com uma beleza que nunca nos pediu retribuição.

É no mármore o teu busto querendo ser tocado 
É no torpor à sombra de uma grande asa 
Em um dos bíblicos jardins do oriente 
A idade da inocência em que tua vida se calou.

Como a cada ano os lírios, os gladíolos,
Os cravos e os crisântemos, todos brancos, 
Também o teu nome rebenta e se multiplica 
Num imenso campo mágico de cassianas.

Ibidem, p. 45


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