terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Adonis

ESPELHO DO CORPO DO OUTONO
Você já viu a mulher
como carrega o corpo do outono?
Primeiro ela mistura o rosto e a calçada
depois tece um vestido com os fios
          da chuva
as pessoas
          na cinza da rua
são brasa apagada. 

ESPELHO DO TEMPO E DO OLHO
Cantei, disse aos dias:
do sangue ergui cidades
que geram ritmos
disse aos dias: estendi-o
como um ramo saudoso
que na seiva me leva ilumina a morte, a mortalha
cantei disse aos dias:
este é o meu sangue
          (certa essência talvez de
          certa ciência
          se a declarasse diriam:
          adora ídolos)
cantei desjuntei — dos cílios que o teciam —
o sonho e juntei ao tempo
o olho.

[ADONIS poemas, São Paulo, Companhia das Letras, 2012, seleção e tradução do árabe Michel Sleiman, pp. 128-129].

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