quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Paul Celan

TENEBRAE
Estamos próximos, Senhor,
próximos e palpáveis.

Palpados já, Senhor,
Agarrados uns aos outros, como se
o corpo de cada um de nós fosse
teu corpo, Senhor.

Roga, Senhor,
roga por nós,
estamos próximos.

Empurrados pelo vento fomos,
fomos até lá para curvar-nos
rumo a vale e cratera.

Havia sangue, havia
o que verteste, Senhor.

Brilhava.

Cristal, São Paulo, Ed. Iluminuras, 1999, seleção  e tradução Cláudia Cavalcanti, p. 67

OS CÂNTAROS
Nas longas mesas do tempo
embebedam-se os cântaros de Deus.
Eles esvaziam os olhos de quem vê e de quem
                                                              [não,
os corações das sombras reinantes,
o magro rosto da noite.
São os maiores bebedores:
levam à boca o vazio como o pleno
e não transbordam como eu ou tu.

Cristal, São Paulo, Ed. Iluminuras, 1999, seleção  e tradução Cláudia Cavalcanti, p. 41


CANÇÃO DE UMA DAMA NA SOMBRA
Quando vem a taciturna e poda as tulipas:
Quem sai ganhando?
                  Quem perde?
                        Quem aparece na janela?
Quem diz primeiro o nome dela?

É alguém que carrega meus cabelos.
Carrega-os como quem carrega mortos nos braços.
Carrega-os como o céu carregou meus cabelos no ano em
                                                                        [que amei.
Carrega-os assim por vaidade.  

E ganha.
              E não perde.
                         E não aparece na janela.
E não diz o nome dela.  
É alguém que tem meus olhos.
Tem-nos desde quando portas se fecham.
Carrega-os no dedo, como anéis.
Carrega-os como cacos de desejo e safira:
era já meu irmão no outono;
conta já os dias e noites.

E ganha.
             E não perde.
                    E não aparece na janela.  

E diz por último o nome dela.
É alguém que tem o que eu disse.
Carrega-o debaixo do braço como um embrulho.
Carrega-o como o relógio a sua pior hora.
Carrega-o de limiar a limiar, não o joga fora.

E não ganha.
                    E perde.
                              E aparece na janela.
E diz primeiro o nome dela.  

E é podado com as tulipas.

(Tradução: Claudia Cavalcanti )

Fonte: www.culturapara.art.br

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