segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Maria Teresa Horta

INVOCAÇÃO AO AMOR
Pedir-te a sensação
a água
o travo

Aquele odor antigo
de uma parede
branca

Pedir-te da vertigem a certeza
que tens nos olhos quando
me desejas

Pedir-te sobre a mão
a boca inchada
um rasto de saliva na garganta

Pedir-te que me dispas
e me deites
de borco e os meus seios na tua cara

Pedir-te que me olhes e me aceites
me percorras
me invadas me pressintas

Pedir-te que me peças
que te queira
no separar das horas sobre a língua

Meu ciúme
meu perfil
minha fome

Meu sossego
minha paz
minha aventura

Meu sabor
minha avidez
saciedade

Minha noite
minha angústia
meu costume

TU
Com esse teu ar
de arcanjo negro

pálido e magro
triste e alheado

ficas por vezes quase etéreo
calado
enquanto eu te olho docemente

Num espanto condenado
quase místico
debruço-me secreta à tua beira

e numa espécie de prece
porque existes

alheado magro
belo e triste

estou de joelhos meu amor
e beijo-te

(Palavras Secretas, São Paulo, Ed. Escrituras, 2007, p. 41-43)

ACUSAÇÃO NO VENTO
Acusaram-me as mãos
na loucura das luas
inclinadas na cintura
das noites

A angústia das aves
só duas
em horizontal no coração das gôndolas
celebraram a paixão
dos amantes sem lábios

rarearam os pianos
nos sonhos

nos espelhos
a angústia
tomou a forma
duma mulher
vestida de encarnado

paixões desencontradas
no som dos violinos
mortos pelo vento

pântanos na vertigem
das princesas

deslealdade
das luzes de neon
entornada nos lagos

acusaram-me os arbustos
nos cabelos

(Palavras Secretas, São Paulo, Ed. Escrituras, 2007, p. 19)
Andrea Farmer

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