terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Florisvaldo Mattos

CAFÉ MATINAL
A Carlos Nelson Coutinho
I
Agora podemos saber o que é pior:
a mente desconexa, a fome a navalhadas.
Mesmo que nos reste a ferida dos signos,
roto lábio sobre espigas de fel,
nada nos salvará, nada será pior.
A luz está no caos celebrando vontades
durando nos espaços matutinos.
No exato momento, ao deus
que nos valeu somos gratos - e mudos
nem mesmo reparamos que se fende
o universo da ilusão.
A lição de modéstia que renova
o passado dos gestos preferimos
o som metálico das vozes - ou apenas
nos rendemos ao peso do silêncio.

II
De meu querer me liberto. Agora vejo:
a verdade resiste a meu próprio consumo.

E sendo credo e coisa, permaneço
longe de mim e perto da verdade,
canto civil engendrado nas perfídias
do tempo, inscrito no muro do sono.

Agora vejo claramente: a luz
rompe o surdo planalto de bandeiras,
favorecida pelo inédito
de tudo. Desce e inaugura para sempre
o instante anônimo da verdade -
o súbito clarão das coisas simples.

A luz está no caos. Acorde e veja. 

Fonte: Poesia Reunida e Inéditos, São Paulo: Escrituras Editora, 2011, p. 84

Sobre o autor: Florisvaldo Mattos é natural de Uruçuça, no sul da Bahia. Escritor e poeta, participou com Gláuber Rocha do grupo que editava a revista Mapa. Publicou, dentre outros, os livros Lucernário, poesia, e Uma História da Poesia Brasileira. Membro da Academia de Letras da Bahia, atualmente ocupa o cargo de editor-chefe do jornal diário A tarde, de Salvador. 


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