quarta-feira, 6 de março de 2013

Mário Faustino

BALADA
(Em memória de uma poeta suicida)

Não conseguiu firmar o nobre pacto 
Entre o cosmos sangrento e a alma pura. 
Porém, não se dobrou perante o fato 
Da vitória do caos sobre a vontade 
Augusta de ordenar a criatura 
Ao menos: luz ao sul da tempestade. 
Gladiador defunto mas intacto 
(Tanta violência, mas tanta ternura),

Jogou-se contra um mar de sofrimentos 
Não para pôr-lhes fim, Hamlet, e sim 
Para afirmar-se além de seus tormentos 
De monstros cegos contra um só delfim, 
The Drunkard - Marc Chagall
Frágil porém vidente, morto ao som 
De vagas de verdade e de loucura. 
Bateu-se delicado e fino, com 
Tanta violência, mas tanta ternura!

Cruel foi teu triunfo, torpe mar. 
Celebrara-te tanto, te adorava 
Do fundo atroz à superfície, altar 
De seus deuses solares — tanto amava 
Teu dorso cavalgado de tortura!
Com que fervor enfim te penetrou 
No mergulho fatal com que mostrou 
Tanta violência, mas tanta ternura!

Envoi

Senhor, que perdão tem o meu amigo 
Por tão clara aventura, mas tão dura?
Não está mais comigo. Nem conTigo: 
Tanta violência. Mas tanta ternura.

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