sexta-feira, 12 de abril de 2013

Campos de Carvalho

Fragmento de "A Chuva Imóvel"

Há quanto tempo estou vagando neste mar, neste deserto — neste abismo? Há quantas noites?
Watts

Ainda estão comigo a minha carne e os meus ossos, esteja onde estiver ainda é em mim que eu estou viajando, assim parado mas girando com a Terra e o seu eixo, com estas águas e o seu silêncio: com este frio que só pode vir de um corpo imóvel ou projetado no infinito.

Já me parece ouvir sob os pés algo de estranho, os meus dois pés e não os de outro: assim como uma música feita de areia, como quando eu pisava a praia ainda que em pensamento, exatamente esta sensação de música nos pés. Posso estar suspenso — a corda!    mas toco com os pés essa areia da infância, assim e cada vez mais nítida, penetrando-me mais do que a penetro, sem que eu faça o mínimo esforço ou movimento. Que é um chão de areia eu não tenho dúvida, irreal ou real, eu suspenso da corda ou apenas meu pensamento, e esta lucidez que me põe tranquilo e ao mesmo tempo em espanto: embora ainda calmo, muito mais calmo do que antes — terrivelmente calmo.

Destes pés é que me virá a revelação, qualquer que seja, e não do meu fígado nem dos intestinos, nem das minhas mãos que nem sei onde estão —: dos meus pés! Sinto, pressinto, algo tão silencioso e frio quanto eu mesmo, como se fosse apenas uma continuação do meu corpo mas não sendo: MAS NÃO  É — um outro mundo que bem pode ser o meu mas também um mundo novo, completamente diferente, e que estou pisando pela primeira vez. Tocam-me não as águas mas a areia que há no fundo dessas águas, a AREIA — e já lhe posso até adivinhar a cor só pelo tato: vermelho, vermelha — como fazia em criança quando pegava alguma coisa no escuro. — Fofo e vermelho.

Daqui sairei eu e vivo, tenho certeza, apesar do frio e deste peso quase insuportável que suporto sobre os ombros, como se suportasse todo o peso do mundo. Valeu-me ao menos para isso a minha experiência de afogado, a minha inexperiência — e sobretudo o que me ficou da calma do irmão em cima e fora da sua bicicleta, o irmão, respirando e andando comigo desde que o enterraram dentro de mim. — E possível que este seja o seu mundo e ele me tenha arrastado até aqui, preso a essa corda que eu comprei e armei julgando ser minha: a corda justamente que se atira ao afogado para que não se afogue, não se afobe — assim como eu ainda há pouco, antes de atingir esta praia.

In A Chuva Imóvel, In Obra Reunida, Rio de Janeiro: José Olympio Ed., 2008, 5a. ed., pp. 277-278.

Nenhum comentário: