segunda-feira, 29 de abril de 2013

Renata Pallottini

PORQUE VOU PARTIR
Porque vou partir
e posso adivinhar a amarga hora,
desejo que em ti floresçam as ternuras alheias,
que o teu amor, se o tiveres, seja grave,
e profundo o teu pranto inevitável.

Sei que a verdade está em ti que a arrancas da carne
e não hesitas nunca e te embriagas de sofrimento.

No entanto, nenhuma pessoa é mais triste,
nenhum homem errou tantas vezes a estrada,
ninguém morreu de tantas mortes.

Porque vou partir
e posso adivinhar a amarga hora,
digo-te adeus e nada mais te digo.
No entanto eu choraria como tu choraste,
nenhuma pessoa é hoje mais triste,
ninguém tão largamente errou no seu caminho.

Não houve quem morresse desta morte,
desta morte que ensinas,
reto caminho das águas,
exato comportamento do fruto
que cai no momento propício.

Volto hoje a estar sem ti
como antes de saber os profundos do abismo,
volto a desconhecer-me e a ser o estranho
de mim mesma.
E estarei para sempre de ti perdida.

Porque vou partir.

[In: Obra Poética,  São Paulo, Editora Hucitec, 1995, p. 149]


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