quinta-feira, 2 de maio de 2013

García Lorca


1910
(Intermezzo)

Aqueles olhos meus de mil e novecentos e dez
não viram enterrar os mortos,
nem a feira de cinza do que chora pela madrugada,
nem o coração que treme arrincoado como um cavalinho de mar.

Aqueles olhos meus de mil e novecentos e dez 
viram a branca parede onde as meninas urinavam, 
o focinho do touro, a seta venenosa 
e uma lua incompreensível que iluminava pelos cantos 
os pedaços de limão seco sob o preto duro das garrafas.

Aqueles olhos meus no pescoço da égua,
no seio traspassado de Santa Rosa dormindo 
nos telhados do amor, com gemidos e mãos frescas, 
num jardim onde os gatos devoravam as rãs.

Desvão onde o pó velho congrega estátuas e musgos, 
caixas que guardam silêncio de caranguejos devorados 
no lugar onde o sonho tropeçava em sua realidade.
Ali meus pequenos olhos.

Não me perguntem nada. Já vi que as coisas 
quando buscam seu curso encontram seu vazio.
Há uma dor de vácuos pelo ar sem gente 
e em meus olhos criaturas vestidas, sem nudez!

Nova Iorque, agosto de 1929

Federico Garcia Lorca, Romanceiro Gitano e outros Poemas, trad. Oscar Mendes, Rio de Janeiro: José Aguilar Editora, 1974, p. 94.



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