quarta-feira, 1 de maio de 2013

Lélia Coelho Frota

EM SINAL DE TE ABRAÇAR
Onze anos no jardim da morte e é como se fosse 
o teu dia de aniversário
tão próximo apareces, de olhos líquidos, dados.
Ervilhas-de-cheiro e uma luz muito clara 
sobre o mármore do teu retrato.
Cartas guardadas agenciam a entrega rápida do passado
onde instantâneo ris, 
no sofá ladeado de cisnes.

Já não tenho o teu endereço
a não ser pela mala dos sonhos.
Há graúnas bicando os grãos da vida,
romã. O que acontece
na paisagem à prova de som, sem gravidade,
suspensa dos filamentos da saudade.

Súbito e são lágrimas, a fratura exposta
da tua falta.
Depressa, depressa demais é que se desprendem os pássaros
do teu rosto.

Dia de Todos os Mortos:
flutuas
pela nave espacial da lembrança.
Nem os acordes do grande órgão de Thomaskirche
iluminado como um transatlântico          
conseguem me levar à tua estrela.
Dali mandas mensagens
convites para o cottage verde
onde fechas devagar os olhos de ocarina.
Acorda
deste lado do espelho
trinca o cristal da ausência,
corpo de ar!
Sobem vazios
os elevadores da morte.

Por esses, e por outros motivos,
recorro à ladainha do teu rosto
que repito que repito
inconscientemente dentro dos anos
me desviando da tua memória frontal
insuportável
até o nosso encontro,
corolário de uma eternidade lógica,
no primeiro círculo do Purgatório,
nos subúrbios do Paraíso.

Em trânsito
para a devastadora claridade
flash fulgurante dos nossos corpos e almas
enfim revelados e contidos fora do espaço e do tempo.

[In Menino Deitado em Alfa, in Poesia Reunida 1956-2006, Rio de Janeiro, Bem-Te-Vi, 2013, pp. 388-389].

John Martin

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