quinta-feira, 16 de maio de 2013

Mariana Ianelli

Contos Capitais
São Tomé e Príncipe
Excerto de "João Menino e o Poeta das Ilhas". 

Releio-te agora amigo
na terra que engrandeceste
e procuro apreender
no meu ser o que escreveste.
(Ruy Cinatti)

I


No ano de 1520, nem a cidade havia sido edificada nem os bosques arroteados e João Menino já vivia em São Tomé. Tinha chegado com os primeiros negros trazidos da costa da África para povoar a ilha, e aos poucos viu nascer a cidade a que chamavam Povoação. Viu mais de cinquenta engenhos serem construídos, viu as canas plantadas e cortadas, o suco fervendo nas caldeiras, a colheita do milho, o cultivo do inhame. Viu João Menino que a terra ali era tão boa que também nela grassava a tristeza. Que era uma terra forte, gorda, pronta para responder ao que quer que se plantasse nela, fosse uma figueira, um meloeiro ou uma cidade. João Menino viu a tristeza nascer com a cidade. Ele sabia que os negros morriam nos meses de vento, não porque o corpo já não aguentasse, mas porque nesses meses se alastrava no ar uma dança oculta que, se alguém dançasse, ia embora com os espíritos. Isso João Menino não contou para o piloto português porque era coisa do seu sangue ioruba, e como sangue devia ser também segredo. Mas contou outras coisas, que o piloto português, por ser homem do mar e fiel obediente do rei, cuidou de transformar e recontar à sua maneira naquela carta sobre a ilha de São Tomé endereçada ao conde Rimondo Della Torre. Por cinco vezes o piloto esteve em São Tomé e nas cinco vezes encontrou o velho negro, tão velho e tão negro quanto podem ser os segredos dos homens das ilhas. Os negros não faziam caso de doenças como a sarna e a sífilis, é o que diz a carta, que «algumas mulheres negras, com uma pouca de pedra-ume e de solimão, fazem um emplastro e usam dele juntamente com a água de certas raízes que dão a beber». A respeito do regato da cidade, cujas águas eram férteis como a terra e, sendo claras, podiam fazer renascer, a carta diz somente que «se não fosse a excelência e bondade deste regato, não se poderia viver em São Tomé». Assim que, entre um relato e outro, ficava guardada a força dos antepassados dos forros, que chegavam aos cem anos enquanto portugueses, franceses e genoveses ali mal passavam dos cinquenta. Não se tem notícias da identidade do piloto, apenas sabe-se que vinha de Lisboa a São Tomé carregar açúcar e que nesta viagem se passava o inimaginável da mais crua realidade de que se fazem todas as odisseias: a tormenta à altura do Bojador, os infinitos tubarões, os jardins de romeiras, laranjeiras e palmeiras nas ilhas de Cabo Verde, e ainda inumeráveis províncias e países com seus reis e suas guerras e suas almas imortais, tudo isto se via no caminho, cavalos-marinhos, crocodilos, e ainda as estrelas do Cruzeiro, muito altas, e as névoas brancas da lua quando os navios aportavam em São Tomé.

Era assim que o piloto português alcançava o seu destino, como um descobridor de histórias, lendas e visões com as quais, além do açúcar, carregava os seus navios. Seus relatos de viagem, depois de quatro séculos, ressurgiram em Portugal e se juntaram aos documentos acerca dos primeiros tempos da ocupação de São Tomé, tempos do velho negro João Menino, que viu a tristeza nascer com uma cidade desde as primeiras palmeiras da Etiópia e outras vidas transplantadas para esse pedaço de exílio, essa terra esbatida pelas chuvas e pelos ventos, terra ardente por dentro, sumarenta, luxuriante de raízes.

[Mariana Ianelli, João Menino e o Poeta das Ilhas, in Contos Capitais, Lisboa, Ed. Parsifal, 2013, pp. 51-54]

Foto de Marcelo Teixeira

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