terça-feira, 18 de junho de 2013

Adriana Lisboa

Excerto do romance "HANÓI"
Ele entrou no mercado asiático, acenou para Alex e pegou um cesto de plástico que encheu com itens pequenos. O critério era um só: que levasse bastan­te tempo para passar no caixa. Por cima, colocou um pé de alface, feito um buquê.
Ela disse oi e passou o código de barras de uma lata de milho no leitor.
Escuta, não sei se te interessa, ele disse. Mas vou entregar o meu apartamento em breve, e náo vou ficar com nada do que tem lá dentro. Vou colocar um anúncio oferecendo no meu prédio, mas estava aqui fazendo compras e me ocorreu que poderia falar com você. Quem sabe alguma coisa tem utilidade.
Achei que você ia ficar uns tempos fora da cidade e depois voltava, ela disse, passando no lei­tor o código de barras de um pacote de macarrão sabor espinafre, made in Taiwan.
Ah, não. Eu não vou voltar.
Alex fez um breve silêncio, depois confir­mou, você disse que não vai ficar com nada do que tem no seu apartamento?
Isso.
Eu na verdade estava era precisando de um computador.
David parou, pensou, o laptop era um bem móvel que não deixaria de ter utilidade, mas que diabos.
Não vou levar meu laptop. Ele não está novo em folha, mas funciona bem. Pode ficar com ele, se quiser.
Ela parou de somar os itens da cesta e olhou-o nos olhos, com curiosidade.
Vamos fazer o seguinte, David falou. Eu vou em casa e já volto com o laptop. Se você gostar, é seu.
Estou precisando de panelas, ela acres­centou, enquanto ele pegava suas duas sacolas de compras.
Meia hora mais tarde, David estava de vol­ta com o laptop debaixo do braço e três panelas encaixadas uma dentro da outra, empunhadas pe­los cabos.
Trung, que arrumava bananas num cesto, olhou para ele como quem tentasse ler as entreli­nhas das suas rugas de expressão. Quem sabe veria o que havia para se ver. Talvez houvesse um desa­pego artificial e ansioso em David. Tome, leve o laptop, leve as panelas — quem sabe todo o com­portamento dele fosse comparável ao de um mau palhaço de circo. Até para ser ridículo é necessário certo grau de seriedade.
Antes de sair de casa David apagou os seus arquivos, por nenhum motivo além do fato de que náo teriam utilidade para Alex. Não havia segre­dos de Estado ali.
Pelo sim, pelo não, resolveu deixar sua mú­sica. Renomeou a pasta: ouça isto Alex.
Talvez no futuro próximo ele pudesse lhe perguntar se tinha chegado a ouvir, e nesse caso se tinha gostado, e nesse caso do que tinha gostado mais. Pensava nela naquele momento como uma pessoa do tipo Nina Simone. Tinha quase certeza de que Alex gostaria de ouvi-la cantando “Feeling Good”.
Lembrou-se mais uma vez daquele doente, o do diagnóstico errado.
Se novos exames revelassem que na verda­de ele não estava doente, David pensou, talvez fos­se uma troca válida. Tudo o que ele tinha em troca de tudo de que precisava. E um diagnóstico errado no meio do caminho, só para que aprendesse a di­ferença entre as duas coisas.
Como que para lhe dizer que aquela não era uma possibilidade, uma pontada funda na ca­beça quase o fez perder o equilíbrio.
Alex não viu. Trung sim. Ele levantou o rosto das bananas e seu olhar topou por um ins­tante com o olhar de David.
Depois Trung retomou seu trabalho, como alguém talvez um tanto constrangido por ter visto o que acabara de ver. O mau palhaço contando uma piada sem graça, os rostos impas­síveis da platéia. O mau palhaço prestes a perder o emprego.
Alex pegou as panelas, revirou uma e de­pois outra.
David apanhou uma caneta largada por ali e uma nota fiscal que alguém tinha deixado para trás. Escreveu seu telefone no verso. Já tinha nota­do que estava perdendo aos poucos essa habilidade tão simples, a escrita — e isso era esperado —, mas por enquanto sua caligrafia ainda era legível.
Se você e o seu patrão quiserem passar para dar uma olhada no resto, ele disse, entregando o pedaço de papel a Alex.
Ela ainda exclamou obrigada pelo compu­tador e pelas panelas! antes que ele saísse para a rua e para a chuva que voltava a cair.

[In HANÓI, Rio de Janeiro:Alfaguara, 2013, pp. 107-110]

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