segunda-feira, 17 de junho de 2013

Pedro Gonzaga

para além dos bancos de areia prateada
para além dos bancos de areia prateada 
cobertos por um capim rasteiro e triste 
está o mar da república oriental 
feito de gelo e tardes desertas 
saudoso de seus generais e caudilhos 
amnesiado dos corpos 
que ali entraram no verão 
à espera de um sol que fosse mais 
que a mera decoração dos souvenirs 
e das caixas de alfajor da zona franca

dentro do carro ouvimos o vento - 
éolo perdido no fim do mundo 
batendo nos vidros com a insistência 
anacrônica de um caixeiro viajante

apertamos nossas mãos 
e eu vejo a mancha de sangue 
entre tuas coxas
alastrando-se muito devagar

mais um mês que estamos juntos, 
no rádio uma velha canção
promete em inglês sulista 
os encantos do amor eterno

olhamos ao mesmo tempo através do vidro 
pequenas gotas de maresia cintilam 
como pedras não lapidadas, 
um sorriso se forma em teus lábios 
a visão de súbito se me liquefaz

e então um locutor (talvez eu mesmo) 
diz entre soturno e zombeteiro: 
señor, não se chega impunemente ao trigésimo quinto inverno

In A última temporada, Porto Alegre: Ed. Ardotempo, pp. 35-36

Sobre Pedro Gonzaga

Barbara Kelley



Nenhum comentário: