quarta-feira, 19 de junho de 2013

André Luiz Pinto

Pior se Deus apressasse um beijo,
                     viesse aqui como lembrança. Pior
se viesse do fundo uma outra verdade 
submersa. Porém todos, como nós, abafam 
os casos. Se fossem diferentes e no
lugar de arriscar, preferissem o pior, mó de uma nova
estrebaria, veio para rugas, greves,
congelamentos, autoramas.
Ainda, se reinventasse um dia de sol.
Deveria supor, não a mim, nem ao poema,
mas ao desejo tácito e fiel.
Ao menos um castigo; de pano
de fundo, uma guerra de troia, meninas
choram, sete e oito anos. Ainda, por ciúme,
seria pouco, muito pouco querido para nos atrapalhar,
ferir-nos a memória, a calmaria da face.
Não poderia ser assim. Não deveria ser por menos,
senhoras tricotam mentiras de abonada
gente. Quem é joio,
quem é judas, por que te beijou, preciso saber. Naquele
lugar distante e faminto, naquela marionete
de pensamentos vãos, ainda persiste. Eis que primeiro
falece, nada não há, aquilo de que
tanto falei, por quem tanto pedi, finalmente - não chego.

Primeiro de Abril (2004)

In: Roteiro da Poesia Brasileira - anos 90, seleção e prefácio Paulo Ferraz, São Paulo: Global, 2011, p. 180-181.

O poeta André Luiz Pinto nasceu no Rio de Janeiro, em 1975.  Com três livros publicados — Flor à Margem (1999); Um Brinco de Cetim/Un Pendiente de Satén (2003);  Primeiro de Abril (2004), ISTO (2005) e Ao léu (2007).    

William Dyce
       

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