quarta-feira, 5 de junho de 2013

Antonio Carlos Secchin

Margem
A Alberto Pucheu

Vou andando para a beira desse porto, 
entre cheiros de cigarro e de sardinha 
e um desejo líquido de partir.
Meu olhar desliza no horizonte, querendo saber 
a que distância um nome deixa de doer.
Seu nome, marcado em minha boca 
como a polpa de uma pera.
O navio enorme avisa que vai embora.
Escrevo a palavra salto, 
e paro no sal, e não chego ao alto.
A noite está boiando
num óleo grosso de silêncio e luz.
Molho os pés, penso em seu nome: gozo 
de um poço tapado. Insônia de musgos 
na beira das águas redondas.
Me vejo na ponta do cais,
cacos de luz
abrindo a cara do mar.
Destroços de palavras, pedaços de seu nome,
sílabas que batem contra os cascos.
Estou parado na beira de um porto,
azul e morte no oco do mar. 

In Todos os ventos, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002, pp. 89-90



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