terça-feira, 4 de junho de 2013

Margaret Atwood

CANÇÃO DO BARCO
Há empurrões e tumulto, 
coletes salva-vidas de menos: 
isso é óbvio;

então, por que não passar os últimos momentos 
praticando nossa modesta arte 
como sempre fizemos,

criando um lago de conforto possivelmente falso 
em meio à tragédia?
Há algo a ser dito em favor disso.

Imaginem-nos, então, na orquestra do navio.
Todos permanecemos em nossos lugares, tocando 
notas breves e dedilhando e marcando o tempo

com nossos instrumentos cotidianos 
enquanto os gritos e as botas correm pesados.
Alguns pularam; seus casacos de pele e seu desespero

puxam-nos para baixo. Mãos crispadas se projetam em meio
[ao gelo.
O que estamos tocando? E uma valsa?
Há comoção demais

para que os outros possam distinguir com clareza,
ou então estão longe demais —

um alegre foxtrote, um velho hino meloso?
O que quer que seja, somos nós com os violinos
enquanto as luzes se esvaem e o grande navio afunda
e a água se fecha sobre ele. 

In A Porta, trad. Adriana Lisboa,  Rio de Janeiro: Rocco, 2013, pp. 109-110



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