sábado, 13 de julho de 2013

Carlos Drummond de Andrade

ODISSEIA


O Amor foi à função, bebeu, cantou e bailou, estava muito excitado, tiveram de levá-lo para casa e prendê-lo no quarto para que repousasse. No seguinte o amor cantou e bailou sem beber, e era sempre primavera nos seus  modos e falas. O amor viajou, voltou, fazia piruetas, trocadilhos, esculturas, criava línguas e ensinava-as de graça. Todos o queriam para companheiro, paravam de guerrear para abraçá-lo, jogavam-lhe moedas que ele não apanhava, gerânios que ele oferecia às crianças e às mulheres. O amor não adoecia nem ficava mais velho, resplandecia sempre, havia quem o invejasse, quem inventasse calúnias a seu respeito, o amor nem ligava. Cercaram sua casa de madrugada, meteram-lhe a cabeça num saco preto conduziram-no a um morro que dava para o abismo, interrogaram-no, bateram-lhe, ameaçaram jogá-lo no precipício, jogaram. O amor caiu lá embaixo aos pedaços, mas se recompôs e foi preso outra vez, aplicaram-lhe  choques elétricos, arrancaram-lhe as unhas, os dedos, o amor sorria  e quando não  podia mais sorrir gritava numa de suas línguas novas, que não era entendida. E desfalecendo voltava à consciência, e torturado outra vez,  era como se não fosse com ele. Quebraram o amor em mil partículas e ninguém pôde ver as partículas. Foi sepultado normalmente no fim  do mundo, que é para lá da memória. Ninguém o localizou, mas todos falavam nele, o amor virou um sonho, uma constelação, uma rima, e todos falavam nele, e ressuscitou ao terceiro dia.
(Contos Plausíveis)

In POESIA E PROSA, Rio de Janeiro: Ed. Nova Aguilar, 1992, p. 1285


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