segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Adriana Lisboa

Excerto de "Hanói"
A dor parecia mais forte do que nunca. Veio de madrugada, quando não havia mais do que uma mínima sugestão de luz no seu quarto. David estava sozinho, como queria. Certo? Não era o que ele queria?

Levantou-se para pegar o analgésico. Suava frio. A náusea agarrou seu estômago e ele vomitou ajoelhado diante do vaso, no banheiro do seu apartamento já quase vazio.

Alex não estava, nem Bruno, nem Trung ou Huong ou Linh. Seus amigos músicos não estavam. Lisa não estava. Bob e seus antigos colegas de trabalho não estavam. Os escritores famosos que haviam autografado livros para ele quando trabalhava na livraria em Gold Coast, a garota ra­diante da tribo indígena canadense. Luiz. Guada­lupe. Seus primos. Miles Davis, Louis Armstrong e Dizzie Gillespie não estavam. Christian Scott. Nem mesmo seu trompete estava ali com ele.

Era somente a dor vertiginosa, a vontade de descolar a cabeça do resto do corpo e atirá-la pela janela, como Lisa tinha feito com o trompete. A dor e a cerâmica do vaso sanitário e a água boiando ali, a água sempre voltando a boiar ali educadamente todas as vezes que ele dava descarga. Seu estômago cuspindo o que houvesse para cuspir e o que não houvesse. A nata de suor frio na testa, nas mãos.

Era extraordinário como a dor simplificava as coisas.

Ele tomou o analgésico quando conseguiu parar de vomitar, e foi se deitar de novo.

Pensou em conchas.

Pensou no que estariam fazendo todas aquelas pessoas em Capitão Andrade, as pessoas que tinham visto Luiz ir embora décadas antes, naquela leva contínua de romeiros escorrendo he­misfério acima.

Perguntou-se onde estaria o piano da avó de Guadalupe, em Hermosillo.

Pensou em Cuauhtémoc e seus pés quei­mando sob orientação de Hernán Cortés. E no coração dos espanhóis prisioneiros, arrancados de seus corpos em altares sacrificiais antes da queda da capital do império asteca.

Pensou no cachorro Oscar e no chocolate do seu último dia.

Deixou que os pensamentos fossem saindo uns de dentro dos outros como as salas de um imenso museu, até sobrar somente o cansaço.

[Lisboa, A. Hanói, Rio de Janeiro: Objetiva, 2013, pp. 201-203].



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