sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Emily Dickinson

NÃO ERA A MORTE, POIS EU ESTAVA DE PÉ
E todos os Mortos estão deitados —
Não era a Noite, pois todos os Sinos,
De Língua ao vento, tocavam ao Meio-Dia.
Não era a Geada, pois na minha Carne
Sentia Sirocos – rastejarem —
Nem Fogo — pois só por si os meus pés de Mármore
Podiam manter frio um Presbitério —
E contudo sabia a tudo isso ao mesmo tempo;
As Figuras que eu vi,
Preparadas para o Funeral,
Faziam-me lembrar a minha –
Como se me tivessem cortado a vida
E feito à medida de moldura,
E eu não pudesse respirar sem chave,
E foi um pouco como a Meia-Noite —
Quando todos os relógios — pararam —
E o Espaço olha à volta —
Ou Terríveis geadas — nas primeiras manhãs de Outono,
Revogam o Palpitante Solo —
Mas foi sobretudo com o Caos — frio — Sem-Fim —
Sem Ensejo nem Mastro —
Nem mesmo Novas de Terra —
A justificar — o Desespero.

oooOOOooo

Florescer — é Resultar — quem encontra uma flor
E a olha descuidadamente
Mal pode imaginar
O pequeno Pormenor

Que ajudou ao Incidente

Brilhante e complicado,
E depois oferecido, tal Borboleta,
Ao Meridiano —

Encher o Botão — opor-se ao Verme —

Obter o que de Orvalho tem direito —
Regular o Calor — escapar ao Vento —
Evitar a abelha que anda à espreita,

Não decepcionar a Grande Natureza

Que A espera nesse Dia —
Ser Flor é uma profunda
Responsabilidade —

oooOOOooo


Eu sou Ninguém! E tu quem és?

Também tu és — Ninguém?
Então somos dois? Não digas nada!
Haviam de apregoar — sabes!

Como é aborrecido — ser — Alguém!

Como é público — qual rã —
Dizer-se o nome — o interminável Junho —
A um Charco admirador!

"LEITURAS, poemas do inglês”, Relógio d´Água, 1993, tradução de João Ferreira Duarte.  

ALICE SOARES


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