terça-feira, 6 de agosto de 2013

Lélia Coelho Frota

FINESTRA DA ENCLAUSURADA
Claridade cobalto
de mar que se adianta
em máquinas de alto
azul, pura faiança

Partida no minuto
daquela intimidade
festiva e cariciosa
em que a praia se alcança.
O melhor do mar
é ser azular
o melhor do mar
é não ser tangível:
resistir ao olhar
e manter-se incrível.
O melhor do mar
é ser impossível:
permitir presença
de corpo sensível
sem jamais deter-se,
transparente veste
sobre a pele clara.
O melhor do mar é fluir
em nível
desapercebido
de incursão qualquer
no fluido tecido
de aéreos pavilhões
— água estremecida
pelos reinos do
coral devaneio.
Pela definida
moldura, pelos quatro
limites que o seccionam
no quadrado aberto
da extática janela
na prisão diária
e abrem
pela sombra adentro
radioso alarme
de alegria, ia
o coração num til
refletindo o inteiro
triunfo da espuma
pulsando, fugindo
da fria pupila
do relógio seu
piscar burocrata seu
rotulado zelo.
Até que em ampla parábola
de um consolo universal
eis que mesmo o pensamento
em meio a azul se desmancha
e o olhar, apenas liberto,
se evade, pequena mancha,
lá, no perfeito horizonte
que justo agora dissolve
discreta, ligeira lancha.

[In Caprichoso Desacerto, in Poesia Reunida 1956-2006, Rio de Janeiro, Bem-Te-Vi, 2013, pp. 230-231].


ODILON REDON



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