quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Elizabeth Bishop

PARIS, SETE DA MANHÃ
Viajo a cada um dos relógios do apartamento:
histriões, alguns ponteiros indicam uma direção,
alguns a outras, a partir de seus ignorantes rostos.
O tempo é uma Etoile;  as horas divergem tanto
que os dias são travessias ao redor dos subúrbios,
círculos ao redor de estrelas, círculos que se sobrepõem.
A pequena escala demi-ton dos climas do inverno
é uma asa de pombo aberta.
O inverno vive sob a asa de um pombo, de um pombo morto e com
[as plumas viscosas.

Olhe para baixo, no pátio. Todas as casas
estão construídas assim, com urnas ornamentais
no cimo das mansardas onde os pombos
passeiam. É como introspecção
o olhar para o interior, ou como retrospecção,
uma estrela dentro de um retângulo, uma recordação:
este quadrado vazio poderia ter estado lá.
— Os fortes de neve da infância, erigidos em invernos mais
[brilhantes,
poderiam ter assumido esta proporção e converter-se em casas;
os poderosos fortes de neve de quatro ou cinco andares,
se resistissem à primavera como os de areia às marés,
seus muros, sua forma, não se teriam dissolvido e morto,
mas somente teriam um se sobreposto ao outro, tornados pedras,
agora acinzentados e amarelecidos como são as pedras.

Aonde as munições, as bolas de canhão em pilhas,
com seus corações de gelo como estilhaços de estrelas?
Este céu não é um pombo-correio-guerreiro
que sabe safar-se da intersecçâo de intermináveis círculos.
É um céu morto, ou o céu do qual caiu um pombo morto.
Suas cinzas, ou plumas, estão guardadas nestas urnas.
Quando se fundiria a estrela, ou teria ela sido capturada
pela sequência de quadrados e quadrados, de círculos e círculos?
E os relógios, saberão? Estará a estrela lá embaixo,
a ponto de despencar sobre a neve?


Bishop, Elizabeth. Poemas. tr. e intr. de Horácio Costa, São Paulo, Companhia das Letras, 1990, pp. 51-53 


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