quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Gerard Manley Hopkins

A LANTERNA LÁ FORA
Às vezes, no meio da noite move-se uma lanterna 
Que atrai nosso olhar. Quem vai lá? quem a conduz?
Fico pensando, meditando de onde e para quê e aonde,
De quem, escuridão adentro, a tateante luz?

Por mim passam os homens, cujo brilho e beleza 
De índole ou de mente, ou do que seja, torna-os raros;
E, até que a morte ou a distância os trague, esparzem 
Em nosso denso ar palustre ricos raios.

Distância ou morte cedo os consome. E se perdem,
No fim, de todo o revolver de minha vista a persegui-los 
Em vão — e, longe dos olhos, longe do coração.

Perto do coração de Cristo, cujos passos os seguem —
Seu olhar e cuidado amoroso em confirmá-los, corrigi-los — 
Fiel primeiro e último amigo, resgate, salvação.

BELEZA MATIZADA
Glória a Deus pelas coisas de cor variada —
Céu pintalgado, como novilha malhada; 
Pintas-rosas salpicando a truta que nada;
Castanhas que caem, como carvões-em-brasa;
Asa de pintassilgo; paisagem de vária 
Nuance — terra de aprisco, arada, baldia;
Ofícios do homem, sua equipagem e indumentária.

Tudo que é raro, original, estranho, oposto; 
Variável, variegado (por que o seria?) —
Lesto, lento; doce, azedo; faiscante, fosco — 
Aquele cuja beleza é imutável os cria:
Louvai-o.

In Poemas, trad. e introd. de Aíla de Oliveira Gomes, São Paulo, Companhia das Letras, 1989, pp. 91 e 95



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