domingo, 1 de setembro de 2013

Manuel António Pina

Na biblioteca
O que não pode ser dito 
guarda um silêncio 
feito de primeiras palavras
diante do poema, que chega sempre demasiadamente tarde,

quando já a incerteza 
e o medo se consomem 
em metros alexandrinos.
Na biblioteca, em cada livro,

em cada página sobre si 
recolhida, às horas mortas em que 
a casa se recolheu também 
virada para o lado de dentro,

as palavras dormem talvez, 
sílaba a sílaba,
o sono cego que dormiram as coisas 
antes da chegada dos deuses.

Aí, onde não alcançam nem o poeta 
nem a leitura, 
o poema está só.

E, incapaz de suportar sozinho a vida, canta.

In Cuidados Intensivos, In Todas as Palavras Poesia reunida, 3a. ed, Porto, Assírio & Alvim, 2013, p. 181.

Monumento ao Livro- Barcelona

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