sábado, 28 de setembro de 2013

Seamus Heaney

1. O MINISTÉRIO DO MEDO 
Para Seamus Deane

Bom, como disse Kavanagh, vivemos 
Em lugares importantes. A solitária escarpa 
De St. Columb’s College, onde me aquartelei 
Por seis anos, sobranceava seu Bogside.
Encarei novos mundos: a inflamada garganta 
De Brandywell, a iluminada pista de corrida 
De cães, a goela da lebre. Na primeira semana 
Senti tanta saudade que nem sequer comi 
A sobra de biscoitos para suavizar meu exílio. 
Joguei-os sobre a cerca certa noite 
Em setembro de 1951 
Quando as luzes das casas de Lecky Road 
Eram âmbar na neblina. Era uma ação 
Furtiva.
            Depois Belfast, depois Berkeley.
Nós dois sob disfarce,

A cometer versos até se transformarem 
Numa vida: de gordos envelopes que chegavam 
Nas férias a magros volumes
Despachados “com os cumprimentos do autor”.
Aqueles poemas a mão, arrancados da espiral
De seu caderno de exercícios, deixavam-me perplexo —
Vogais e idéias jogadas soltas
Como as sementes que o vento levava dos sicômoros. 
Tentei escrever sobre os sicômoros 
E inovei uma rima do sul de Derry 
Com bushed e lullede ecoando pushed  e pulled.
Aquelas chancas ferradas de além da montanha 
Andavam, por Deus, pelos primorosos 
Campos da elocução.
         Terão nossos sotaques
Mudado? “Católicos, em geral, não falam 
Tão bem como os alunos das escolas protestantes.” 
Lembra-se daquela essência? Complexos 
De inferioridade, essência de que os sonhos eram feitos. 
“Qual é o seu nome, Heaney?”
               “Heaney, padre.”
                                          “Está
Bem.”
No meu primeiro dia, a correia de couro
Estalava epiléptica na sala de estudos,
Os ecos salpicando sobre nossas cabeças curvas,
Mas ainda assim escrevia para casa que a vida
De internato não era tão ruim, retraindo como sempre.

Nas férias longas, então, eu revivia
No banco de beijos de um Austin Dezesseis
Parado junto a uma empena, o motor ligado,
Meus dedos firmes como hera nos ombros dela,
Uma luz acesa a esperá-la na cozinha.
E a caminho de casa, a liberdade
Do verão minguando noite após noite, o ar
Todo luar e odor de feno, policiais
Brandiam as lanternas carmim, rodeando
O carro como gado negro, a apontarem
A boca da automática para meu olho:
“Qual é o seu nome, motorista?”.
                                                “Seamus...”
                                                                      Seamus?

Certa vez leram minhas cartas num bloqueio
E luziram os fachos sobre os hieróglifos,
“Dicções esbeltas” em letra bem floreada.

Ulster era britânica, mas sem direitos
À lírica inglesa: a nossa volta, embora
Sem mencioná-lo, o ministério do medo.

Sobre Seamus Heaney

In Poemas, São Paulo, Companhia das Letras, 1998, pp. 130-132.





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