sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Walt Whitman

CANÇÃO PELO TEMPO DE LILÁS
Cantai para mim, agora, a alegria do tempo de lilás (voltando à
[memória),
Escolhei para mim, ó língua e lábios, em nome da natureza, souvenirs
[do princípio de verão, 
Juntai os sinais bem-vindos (como as crianças com ágatas ou conchas
[penduradas
Colocai em abril ou em maio, as pererecas coaxando nos açudes, o
[ar elástico,
Abelhas, borboletas, o pardal com notas simples,
O azulão e a andorinha que se arremessam, sem esquecer o buraco-
[alto cintilando suas asas douradas, 
A tranquila névoa solar, a fumaça que sobe, o vapor,
O tremeluzir das águas com os peixes dentro delas, o azul celeste
[acima,
Tudo o que é aprazível e brilhante, os riachos correndo,
As florestas de carvalho silvestre, os cintilantes dias de fevereiro e
[a fabricação de açúcar,
O pisco de peito ruivo no lugar em que dança, com olhos brilhantes
[e peito marrom, 
Com um chamado musical claro na alvorada e, novamente, no
[crepúsculo,
Ou esvoaçando entre as árvores do pomar de macieiras, construindo
[o ninho de seu par,
A neve derretida de março, o salgueiro emitindo seus brotos amarelos
[esverdeados,
Pois o tempo da primavera é aqui! O verão é aqui! E o que é isso
[em si mesmo e de si? 
Tu, alma, presa — a inquietação de ir atrás de algo que não sei; 
Vem! não nos atrasemos mais por aqui, que possamos subir e ir
[embora!
Ó se alguém pudesse apenas voar como um pássaro! 
Ó escapar, para navegar como em um navio!
Deslizar contigo, ó alma, sobre tudo, em tudo, como um navio
[sobre as águas;
Reunindo esses sinais, os prelúdios, o céu azul, a relva, as gotas de
[orvalho matinal,
O perfume de lilás, os arbustos com folhas verde-escuras em forma
[de coração,
Violetas, os pequenos botões delicados e pálidos chamados inocência, 
Exemplos e tipos não por si mesmos, mas para a sua atmosfera, 
Para agraciar o arbusto que amo — para cantar com os pássaros, 
Uma canção pela alegria do tempo de lilases, voltando à memória.

In Folhas da Relva, trad. Luciano Alves Meira, São Paulo, Martin Claret, 2006, pp. 372-373.



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