terça-feira, 8 de outubro de 2013

Astrid Cabral

XXXVII
Ó Zenóbia, augusta rainha, 
pergunto pelas caravanas 
dos mercadores de tâmaras 
seus lerdos tardos camelos 
cargas de almíscar e sedas 
entre montanhosas corcovas. 
(Embalde caçar na areia 
os traços desses rastros)
O Zenóbia, augusta rainha, 
pergunto pelos exércitos 
de aguerridos soldados 
seus lépidos cavalos bravos 
sustentando justas lutas 
contra o império romano.
(A poeira apagou as pegadas 
e manchas de muito sangue)
O Zenóbia, augusta rainha, 
não mais correm as moedas 
que um dia cunhaste em 
atitude de sã rebeldia.
Neste deserto de Palmira 
tão eixo e coração da Síria 
até a necrópole está vazia.
Nas nobres torres funerárias 
e hipogeus desertos sequer 
os ossos testemunhos de gente. 
Ó Zenóbia, augusta rainha, 
os ovos que auguram a vida 
em tantos baixos-relevos 
jamais romperão das cascas.
Agora tudo o que em teu chão 
pulsa e corre são as negras 
veias de petróleo irrigando 
remotos aglomerados de homens 
onde carros mecânicos correm 
em vez de camelos e cavalos.
O sangue contudo escorre 
em outros corpos e guerras brutas 
e novo comércio ora se faz 
com moedas recém-cunhadas.
O Zenóbia, augusta rainha, 
atores novos em cenário insólito 
bisamos a velha História.

In Torna-Viagem, In De déu em déu -  poemas reunidos (1979-1994), Rio de Janeiro: Sette Letras, 1998, p. 127-128.

Zenobia
 Harriet Hosmer

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