domingo, 6 de outubro de 2013

García Lorca

TRÊS RETRATOS COM SOMBRAS

VERLAINE
A canção,
que nunca direi,
adormeceu em meus lábios.
A canção 
que nunca direi.

Entre as madressilvas 
havia um vaga-lume, 
e a lua feria 
com um raio a água.

Então eu sonhei
com a canção
que nunca direi.
Canção cheia de lábios
e de álveos distantes.

Canção cheia de horas
perdidas na sombra.
Canção de estrela viva
sobre um perpétuo dia.

BACO
Verde rumor intacto.
A figueira me estende os braços.

Como uma pantera, sua sombra 
espreita a minha lírica sombra.

A lua conta os cachorros.
Equivoca-se e começa de novo.

Ontem, amanhã, negro e verde, 
rondas meu cerco de lauréis.

Quem como eu te quereria, 
se me mudasses o coração?

... E a figueira grita para mim e avança 
terrível e multiplicada.

JUAN RAMÓN JIMÉNEZ
No branco infinito,
neve, nardo e salina,
perdeu sua fantasia.

A cor branca anda 
sobre um mudo tapete 
de penas de pomba.

Sem olhos nem ademã 
imóvel sofre um sonho.
Mas treme por dentro.

No branco infinito, 
quão pura e longa ferida 
deixou sua fantasia!

No branco infinito.
Neve. Nardo. Salina.

In Canções (1921- 1924), In Obra Poética Completa, São Paulo, Martins Fontes, 1996, trad. Willian Angel de Mello, pp. 299-301



Nenhum comentário: