sábado, 5 de outubro de 2013

Murilo Mendes

Anti-Elegia N° 3
As magnolias avançam com um ímpeto inesperado 
São ombros nus é o luar o vidro de veneno 
Deve haver um homicídio uma pergunta à esfinge

Um ultimato ao sonho um arroubo do universo. 
À meia-noite em ponto bate o mar na varanda 
É impossível deixar de acontecer alguma coisa 
Há uma espera vã — raptaram as nebulosas.

Canção
Vejo as nuvens decotadas 
Ouço o murmúrio do mar 
Palpo a matéria de pedra 
Espero a amada voltar.

Desespero... espero em vão.
Este céu que não acaba 
E esta amargura que me faz viver,
Que vem soprando desde a eternidade.

Delírio Divino
O lirismo de Deus aumenta súbito 
Oscila o infinito nas bases 
Metafísica da física
Brota uma violeta nos anéis de Saturno 
Alguém desfolha um ciclone 
Os aeromoços corteses 
Penteiam a cabeleira das filhas do demônio 
Deus com fome 
Mata um homem e come.

In Os Quatro Elementos, Poesia Completa e Prosa, Ed. Nova Aguilar: Rio de Janeiro, 1994, pp. 380-381].


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