domingo, 10 de novembro de 2013

Adélia Prado

A SAGRADA FACE
A dentadura encravou-se? Rezai,
prometei abstinências por um ano
para que a prótese malfeita se despregue da boca.
Ó Deus, como éreis bom,
rosas, dentes postiços,
touceiras de coqueirinho,
a profusão dos milagres.
Casimiro de Abreu, que não era santo,
mas que estava nos livros,
também ele dizia, como Jó,
como meu pai e minha mãe diziam:
“um Ser que nós não vemos
é maior que o mar que nós tememos...”
Que faço agora que Vos descubro em silêncio,
mas, dentro de mim, em meus ossos,
vertiginosa doçura?
Os dentistas fazem as próteses, não Vós,
a terra é quem gera as rosas.
Desde a juventude pedi, quero ver Teu Rosto,
mostra-me Tua Face.
Então é este o esplendor,
este deserto ardente, claro,
de tão claro sem caminhos!
Esta doçura nova me empobrece,
nascer sem pai, sem mãe,
objeto de um amor em mim mesma gerado.
Flor não é Deus, terra não é, eu não sou.
Pobre e desvalida entrego-me ao que seja
esta força de perdão e descanso, paciência infinita.
Quase posso dizer, eu amo.

In O Pelicano, Rio de Janeiro, Ed. Guanabara, 1987, p. 43.

JÔ TURQUEZZA


2 comentários:

Wendel Valadares disse...

Antônio, eu visito seu blog diariamente, mas quando vejo uma postagem com Adélia Prado, ah eu corro pra cá na hora...rsrs

Damásio disse...

Meu poeta, todos amamos Adélia Prado.... Ela estará sempre presente aqui. Abração... e obrigado pelas visitas!!!