terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Lélia Coelho Frota

BALANÇO DOS VINTE ANOS
Dizer a flor da idade
a síntese minguada
de concreto e ficção
assim entrelaçados
a nos cristalizar:
o pouco — o florescente —
em muito: esta emoção.
Os prismas diluindo
real em relativo
constroem a paisagem
em torno da louçã:
vida vargem florida.
(O inverno é rubrica
de prata, imponderável
mal se arrisca em prenúncio
sem chegar a certeza.)
Terrível primavera
as promessas acesas
em cinco ávidas ânsias
que não passam da infância
no seu desabrochar.
— É a conduta humana
a quem deveis culpar
doutores de Alzaar
já que foge de amar
quem em vez de amor, dá ar.
O paladar reclama
suquinhos e temperos
mas o seu exagero
de ótimo o consome
e o isola na fome.
Caridoso olhar
quer fundir-se na fímbria
da harmonia das cores
que navegam o espaço
bojo das figuras —
investiga e desola-se
ante a inútil dinâmica
de sombras, corpos, flores
ausentando-se em sono.
As mãos desejariam
ser brandas portadoras
de excepcionais infantes
valencianas e cassas
voando em transparência.
No limite barroco
da província trocista
dos eros em ciranda
estacam reticentes
e sempre: flor latente.
Aroma serafínico
prezou sua atmosfera.
Os incensos fugiram
no bolso do delfim
e o ar indiferente
é insípida fera
que nos fere com paina.
Música? Só de Mozart
e Bach, insopitáveis.
Mas há (íntimos) leigos
sempre tédio, memória
a acionar mudas cenas
lançando em desalinho
rosicler, minueto.
Que fazer desta vida
primavera precipite
em recreio de amor?
Vida vargem florida.
E a palavra aturdida
na ausência multicor.

[In: Poesia Lembrada, Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1971, pp. 170-171]


 by Alberto Bruzzone



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