sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Luís Henrique Pellanda

CAVEIRA DE ANJO
Sigo ligeiro, a cabeça baixa, uma missão a cumprir ali na esquina. Desatento, mal a percebo num dos bancos da Pracinha do Amor, tão quieta debaixo de duas cobertas. Impossível separá-las, a mulher de suas mantas azuis. Faz calor, é outubro, e ela deve estar doente. Em meio a tanta lã, tudo o que vejo é um rosto chupado e dois olhos verdes na cara da morte.

Eu a conheço. Pelo jeito acordou agora, no fim da tarde. Traz no colo uma caixa de sapatos fechada. Minha passagem a assusta, ela desperta e, sem hesitar, me chama ei, a voz bem preservada, ei, cara, numa impostação autoritária, chata, vem cá, vem. Não vou, mas paro, não parar seria muita falta de respeito, só que não me aproximo e ficamos assim, duas estátuas desconfiadas a sete, oito passos uma da outra, rígidas, até que uma delas enfim se cansa e espicha um tentáculo, um braço nu tatuado à caneta, a palma da mão estendida escapando das cobertas.

— Cinco reais, mestre.

— Cinco reais pra quê?

A mulher me responde com um gesto de enfado, pousa os dedos sobre a caixa, a foto de um par de tênis caros. Ignoro o tesouro guardado lá dentro, mas me surpreende a beleza daquela mão bem desenhada, de ossos longos e majestáticos. Pena a pele tão seca, queimada de cigarros, a tristeza das unhas feridas acariciando o papelão da tampa, brilhoso. Ela gosta de suspenses e, sim, eu gosto dela, tem um sorriso também bonito, a dentição branca e sólida, um muro de pedras vivas.

— Pra ver o que tem na caixa. Cinco reais.

Acho graça. Ela sabe mesmo vender um mistério, tem a manha, e admito que já ganhou meu coração, mas obrigado, nada feito, não pago para ver o que não pedi e nem sei o que seja, me desculpe. Encerro as negociações e me preparo para sair de cena, retomar o bom caminho da panificadora Fênix, a missão original interrompida. Só que ela, vendedora corajosa, não abandona um freguês, comercia com franqueza.

— Seja educado, mestre, me deixe explicar.

Perfeito. É necessário ser educado, concordo e me envergonho, perdão, me rendo ao argumento da elegância. Possuo a ridícula vaidade dos padres confessores, sou um ótimo ouvinte, mas peço que, por favor, se explique logo, o que foi, estou com certa pressa, esclareço, preciso trabalhar — só não conto a ela que é mentira minha, que tenho amigos em casa, e que estão todos lá agora mesmo, reunidos ao redor da mesa posta, à espera de pães, queijos e cuques de goiabada, a água no fogo, o leite fervido e as crianças brincando no terraço, suas roupas sujas de giz de cera, tinta guache, suco de uva.

— Por acaso, mestre, te cobrei pra saber o que tenho na caixa?

Respondo que não, realmente, e ela volta a sorrir, vencedora; afinal, pra saber é de grátis, meu irmão, ver é que vai te custar cinco reais, a informação é cortesia.

É, gosto dela, não nego, e por isso rimos juntos, nos associamos na hora extrema da gargalhada, embora no fundo me intrigue e desagrade vê-la tocar novamente o papelão da caixa com isso que agora já considero uma espécie mal disfarçada de amor, um tique passional, indicador de não sei quantas fragilidades da alma. Não, ainda não nos acertamos, não confiamos um no outro.

Apesar disso, ela volta a me chamar para perto, quer dinheiro e quer logo, e eu continuo imóvel, não chego junto, não apenas o seu cheiro é forte demais, como também suspeito de algum trote, uma armadilha sentimental. Não há ninguém por perto, eu sei, investigo o espaço à nossa volta, está vazio e silencioso; é sábado, ora, e é feriado, há sol, e somos os dois únicos animais visíveis naquela praça, até as andorinhas parecem ter se desintegrado na luz limpa da primavera. Mas não me sinto à vontade.

— Diga logo o que é.

Ela esconde os dentes e deixa cair as sobrancelhas grossas. Troca a máscara alegre por outra, de uma seriedade farsesca, dramática. Está sendo teatral, mas tem talento, nasceu para a coisa. Sussurra, gravemente:

— É a caveira de um anjo.

Não me mexo, não respiro, nada digo. Ela vê que me atingiu, e repete a primeira fala.

— Cinco reais, mestre.

Ela esteve grávida no início deste ano, bem lembro. Passou o primeiro semestre gemendo sob as marquises da Ébano, recusava qualquer ajuda, fugia da assistência social. Depois de ficar um tempo sumida, voltou ao velho posto, sozinha e sem barriga. E a recordação daquela gravidez evaporada me derruba.

— Não, obrigado, não me interessa.

Tento lhe dar as costas, envergonhado, mas ela se ergue do banco, se livra das mantas azuis, uma lufada de calor azedo me alcança, ei, ela faz menção de me perseguir, é dez centímetros mais alta que eu, vinte anos mais nova, está de sutiã, minissaia e nada mais, os pés descalços, tão magra, a caixa de sapatos debaixo do braço, ei, cara, peraí. Paro novamente, com medo de que me agarre, ou me abrace, ou me engula. Ela sossega, desfaz o bote, desiste da ameaça de contato corporal, mas volta à carga, e ouço a ordem de uma rainha:

— Então me dê uma grana aí, cara.

Obedeço. Tiro a carteira do bolso da jaqueta e separo cinco reais. Nos aproximamos finalmente, ela apanha a nota, guarda a garça no bolso da saia, e de relance vejo, na pele de sua barriga, uma longa lista de prenomes masculinos rabiscados à esferográfica vermelha: Daniel, Gabriel, Rafael, Miguel, Emanuel, Misael. Dezenas de nomes de menino escritos de ponta-cabeça.

Ela agora está radiante, tornou-se uma criança calorosa, estranhamente satisfeita comigo, foi bom negociar com você, paizinho. Diz isso e já me lembra da proposta inicial: pelos cinco reais que paguei, ainda detenho o direito de ver a caveira do anjo, não estou a fim? Me oferece a caixa, quase a encosta no meu peito e, assim de perto, posso ouvir algo rolando lá dentro, no escuro, e me arrepio, e penso nos meus ossos se partindo, e em cambalhotas de bebês.

Recuso a oferta, valeu, não preciso ver nada, não. Eu agradeço, ela me agradece e volta a rir, amigável, desarmada, abraçada à sua valiosa caixinha inviolada. Afetuosa, me garante que, a partir de agora, estarei eternamente protegido: comprei muitos créditos com o seu anjinho.

Gostaria mesmo de acreditar. Mas eu sei que não. Continuarei devendo, para sempre.

In Suplemento Literário de Pernambuco

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