sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Saint-John Perse

A PAREDE
O laço de parede está em frente, para conjurar o círculo de teu sonho.
Mas a imagem solta um grito.
A cabeça contra o descanso da poltrona gorda, examinas os dentes com a língua: o gosto de gorduras e molhos infecciona-te as gengivas.
E sonhas com as nuvens puras sobre tua ilha, quando a aurora verde se elucida no seio das águas misteriosas.
... É o suor das seivas em exílio, o unto amargo das plantas de síliquas, a acre insinuação das mangueiras carnudas e o ácido deleite de certa substância negra nas vagens.
É o mel silvestre das formigas nas galerias da árvore morta.
É um sabor de fruto verde, que acidula a aurora que bebes; o ar leitoso enriquecido com o sal dos alísios...
Alegria! ó alegria desatada nas alturas do céu! Os panos puros resplandecem, os adros invisíveis estão semeados de ervas e as verdes delícias da terra penteiam-se ao século de um longo dia.

[In Obra poética, Tradução de Darcy Damasceno, Estudo introdutivo de Roger Caillois, Ilustrações de Zao Wou-Ki, Rio de Janeiro, Ed. Opera Mundi, 1973, p. 107].



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