terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Giorgos Seféris

Strátis marinheiro entre os agapantos
Não há asfódelos nem violetas nem jacintos aqui;
como falar então aos mortos?
Os mortos só conhecem a linguagem das flores;
por isso calam
viajam e calam, padecem e calam
na terra dos sonhos na terra dos sonhos.

Se eu me puser a cantar, gritarei
e se gritar
os agapantos me imporão silêncio
erguendo a mãozinha azul de menino da Arábia
ou seus passos de ganso no ar.

É difícil, oneroso; não me bastam os vivos;
primeiro porque não falam e depois
porque eu preciso interrogar os mortos
para poder seguir.
Não há outra maneira; mal me vem o sono
os companheiros rompem os cordéis de prata
e o odre dos ventos se esvazia.
Eu o encho, esvazia-se; eu o encho, esvazia-se;
acordo
como peixe dourado a nadar entre as intermitências
do relâmpago,
e o vento, o dilúvio, os cadáveres humanos
e os agapantos cravados como setas
do destino na terra sequiosa
sacudidos por gestos espasmódicos,
dir-se-ia levados numa velha carroça,
a rolar por ínvios caminhos, pavimentos
decrépitos
os agapantos, asfódelos dos negros:
como hei de aprender tal religião?

A primeira coisa que Deus fez foi o amor
depois veio o sangue
e a sede de sangue implantada
pelo sêmen do corpo, como sal.
A primeira coisa que Deus fez foi a longa viagem;
e a casa à espera
e o fumo azulado
e o velho cão
aguardando, para expirar, tão-só a volta do seu dono.
Mas é preciso que os mortos me esclareçam
e os agapantos os deixam taciturnos,
como o fundo do mar ou a água do copo.
Os companheiros permanecem nos palácios de Circe;
Elpenor meu caro! o meu tolo, o meu pobre Elpenor!
Eh! não o vedes ali?
("Socorro!")
De Psará a negra serrania.

Transvaal, 14 de janeiro de 42

[Poemas Giorgos Seféris,  sel., trad. e notas de José Paulo Paes, São Paulo: Nova Alexandria, 1995, pp. 121-122]. 


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