sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Maria Lúcia Dal Farra

ORQUÍDEA
Ter sardas é a marca registrada desta fada.
O que não afeta sua beleza
antes a favorece
e acrescenta naturalidade
à maquiagem feita para enfeitiçar: a baunilha
é uma orquídea.
Pobre da aranha, do mosquito, da vespa, do zangão
e da abelha! Imantados pelo néctar que os guia
ao corredor aéreo
(armadilha: balizas, pista colorida, estrias)
onde aterrissam direto para o sexo
(território de pelos envolventes, forma, odor, tato, cor)
— embebedam-se ardorosamente
e copulam com a flor.

A bela e sedutora dama (no entanto)
tem raiz grega masculina.
São de testículos as grossas desinências
que convertem essa filha do ar
em ser do chão
— depois de muitas acrobacias
(a perseguir incessante o sol)
conforma-se com seu murcho simulacro:
um fungo — o reles cogumelo!

Também se tomam cópias
de si mesmas — mas com vantagem.
Macho e fêmea (sempre vamps)
jamais deixam de atender pelo nome de
Vênus.

Estrela-guia,
ensina-me o fascínio da tua androginia!

[In Maria Lúcia Dal Farra, Livro de Possuídos, São Paulo, Iluminuras, 2002, p. 67]

By Gerry Daniel


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