terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Nikos Kazantzákis

EXCERTO DE "CARTA A GRECO"          

Foi um momento decisivo na minha vida; a angústia que em mim se instalara, nessa manhã, ia talvez escolher este meio de abrir a porta e fugir. Quem sabe, devo ter pensado, ainda que de modo confuso, se esta angústia adquirisse um corpo, se a palavra lhe desse um corpo, então veria o seu rosto e, vendo-o, nunca mais o temeria. Tinha cometido um grande pecado; se o confessasse, ficaria aliviado.

Pus-me, portanto, a mobilizar as palavras, a evocar as vidas de santos, as canções e os romances que tinha lido, a pilhar involuntariamente aqui e ali, a escrever... Fiquei surpreendido logo que alinhei as primeiras palavras sobre o papel. Nada tinha no espírito, recusava-me a escrever semelhante coisa, porque o tinha feito? Como se não me tivesse libertado para sempre do contacto amoroso — e contudo estava seguro de me ter libertado —, pus-me a cristalizar em redor da irlandesa uma lenda cheia de paixão e de imaginação. Nunca lhe tinha dito palavras tão ternas, jamais sentira tantas alegrias ao aproximar-me dela como o que proclamava no papel. Mentiras, só mentiras, e no entanto, ao alinhá-las no papel, compreendia, com espanto, que tinha saboreado com ela grandes alegrias. A verdade estaria, pois, em todas essas mentiras? Porque é que, quando as vivia, não as compreendia? E porquê, agora que escrevia, era a primeira vez que as compreendia?

Escrevia e estava cheio de orgulho: era um deus, fazia o que queria, transformava a realidade, recriava-a tal como a desejava, tal como ela poderia ser, misturava inextricavelmente verdades e mentiras, já não havia verdades e mentiras, tudo era um barro mole que eu afeiçoava, desfazia, a meu bel-prazer, livremente, sem pedir autorização a quem quer que fosse.

Deve existir uma incerteza mais segura do que a certeza; mas uma delas encontra-se num andar acima desta construção do homem mesmo no solo a que se chama verdade. 

A irlandesa insignificante, um pouco atarracada, tomara-se irreconhecível naquela obra; e eu, o galo depenado, enchera-me de grandes penas cintilantes que não existiam em mim.

Acabei ao fim de poucos dias. Fechei o manuscrito, escrevi sobre a capa, em letras bizantinas vermelhas, A Serpente e o Lí­rio, depois levantei-me, fui à janela e respirei profundamente. A irlandesa já não me atormentava, tinha-me deixado, estava deitada no papel de onde não podia mais separar-se, eu encontrava-me livre.

[In Carta a Greco, Tradução de Armando Pereira da Silva e Armando da Silva Carvalho, Lisboa, Ed. Ulisseia, 1961, pp. 136-137]

          Sobre Nikos Kazantzákis


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