quinta-feira, 10 de abril de 2014

Emílio Moura

POEMA
DE que nos valerá todo esse esforço para recuperar
     [de uma hora para outra a perdida serenidade ?
De que nos valerá todo esse esforço, se o mal não
está no gesto desesperado desses horizontes que
     [se fecharam ?
Se ele não está nessas algemas inexoráveis que a
     [mão do homem forjou para a mão do homem ?
De que nos valerá todo esse esforço, se o mal não
está no grito lancinante desses trens ininterruptos
que lá vão esmigalhando cabeças dentro da
     [noite ?
De que nos valerá tudo isso, se o mal está mas é na
ausência da simplicidade que desertou, já faz
     [tanto tempo, da face fria e desesperada da terra?
De que nos valerá tudo isso, se o mal está mas é na
     [ressurreição de Caim ?

[In POESIA 1932-1948, Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1953, pp. 261-262]





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