terça-feira, 29 de abril de 2014

Gustavo Petter

Para Joanna Skorupski.
I.
A bisavó polonesa
cultivava flores
e possuía um apiário.
Os dias consumiam-se
entre pétalas e folhas
e alvéolos.

Compreendia o ritmo vegetal,
como os xamãs
curandeiros.

O alzheimer é a chama fosca
dos olhos fixos.
O alzheimer é o não indagar
o azul sem nuvens.
É esquecer os usos
silenciosos da adaga.

Foda-se a desmemória.
Reinventemos para mim
um nome:
sou o estrangeiro que ama
flores incomuns.
As inscreve na própria pele
para que não sejam breves
como os relâmpagos.

II.
Na página é branco
o silêncio.
Orno a monocromia
com estilhaços antigos,
colhidos na autópsia
da criança.

Havia o fogão a lenha,
o termômetro de mercúrio
em forma de galo.
Vasos, muitos vasos
na casa que chamávamos
chalé.
Na parede um brasão polonês,
águia
sobre um fundo rubro.

A Virgem negra
de Czestochowa
abençoa
os herdeiros do holocausto.

Lembro dos livros
manuais de botânica.
O quadro
com borboletas mumificadas.
E no bojo de um vidro
o alvíssimo
cisne de açúcar
capturado
nas bodas
já esquecidas.

[Gustavo Petter, nasceu em 1984. Mora em Araçatuba, SP. Mantém o blog "Agradável Degradado", onde publica seus poemas e traduções. Para G. Petter, "O poema não admite policiamentos morais, estéticos. A liberdade possível é a linguagem". E completa: "Não há palavra impalatável para o poema".]


 Grant Wood

3 comentários:

isabel mendes ferreira disse...

Maravilha. Um blog que ama a palavra. E que nos deixa sem ela para dizer o quanto é bom.



Bem haja.


♥♥♥

Damásio disse...

Obrigado, Bela. Sem palavras a vida não tem graça. Bj

isabel mendes ferreira disse...

Pois não meu mt querido amigo.