segunda-feira, 12 de maio de 2014

García Lorca

ELEGIA A DONA JOANA, A LOUCA
DEZEMBRO DE 1918
(Granada)
A MELCHOR FERNÁNDEZ ALMAGRO

PRINCESA enamorada sem ser correspondida.
Cravo vermelho num vale profundo e desolado.
A tumba que te guarda ressuma tua tristeza
através dos olhos que abriu sobre o mármore.

Eras uma pomba com alma gigantesca
cujo ninho foi sangue de solo castelhano,
derramaste teu fogo sobre um cálice de neve
e ao querer alentá-lo tuas asas se partiram.

Sonhavas que teu amor fosse como o infante
que te segue submisso recolhendo teu manto.
E em vez de flores, versos e colares de pérolas,
te deu a Morte rosas murchas em um ramo.

Tinhas no peito a formidável aurora
de Isabel de Segura. Melibéia. Teu canto,
como calhandra que olha quebrar-se o horizonte,
se toma de repente monótono e amargo.

E teu grito estremece os alicerces de Burgos.
E oprime a salmodia do coro cartusiano.
E choca com os ecos dos lentos sinos,
perdendo-se na sombra tremente e lacerado.

Tinhas a paixão que dá o céu da Espanha.
A paixão do punhal, da olheira e do pranto.
Oh! princesa divina de crepúsculo vermelho,
com a roca de ferro, e de aço o fiado!

Nunca tiveste o ninho, nem o madrigal dolente,
nem o alaúde jogralesco que soluça distante.
Teu jogral foi um mancebo com escamas de prata,
e um eco de trombeta sua voz enamorada.

E, sem embargo, estavas para o amor formada,
feita para o suspiro, o mimo e o desmaio,
para chorar tristeza sobre o peito querido,
desfolhando uma rosa de olor entre os lábios.

Para olhar a lua bordada sobre o rio
e sentir a nostalgia que em si leva o rebanho
e olhar os eternos jardins da sombra,
oh! princesa morena que dormes sob o mármore!

Tens os olhos negros abertos à luz?
Ou se enroscam serpentes em teus seios exaustos...
Para onde foram teus beijos lançados aos ventos?
Para onde foi a tristeza de teu amor desgraçado?

No cofre de chumbo, dentro de teu esqueleto,
terás o coração partido em mil pedaços.
E Granada te guarda como santa relíquia,
oh! princesa morena que dormes sob o mármore!

Heloísa e Julieta foram duas margaridas,
mas tu foste um vermelho cravo ensanguentado
que veio da terra dourada de Castela
para dormir entre neve e ciprestais castos.

Granada era teu leito de morte, Dona Joana,
os ciprestes, teus círios; a serra, teu retábulo.
Um retábulo de neve que mitigue tuas ânsias,
com a água que passa junto a ti! A do Douro!

Granada era teu leito de morte, Dona Joana,
a das torres velhas e do jardim calado,
a da hera morta sobre os muros vermelhos,
a da névoa azul e da murta romântica.

Princesa enamorada e mal correspondida.
Cravo vermelho num vale profundo e desolado.
A tumba que te guarda ressuma tua tristeza
através dos olhos que abriu sobre o mármore.

[In Livro de Poemas (1921), In Obra Poética Completa, Tradução de Willian Angel de Mello, Martins Fontes, São Paulo, 1996, pp. 29-31].





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