domingo, 4 de maio de 2014

Hanna Senesh

COLHEMOS FLORES
Colhemos flores nos campos, nas montanhas,
Inspiramos o renovado ar da primavera.
O sol nos banhou com o calor de seus raios
Em nossa pátria, um lar que prospera.
Vamos ao encontro de nossos irmãos no exílio
Através do frio que o rigoroso inverno produz.
O coração trazendo a promessa da primavera.
Os lábios entoando uma canção de luz.
[Início de março, 1944].

MONTANHAS CELESTES...
Montanhas celestes para sempre banhadas em calma
Com calma me contagiaram.
Senhor! Permita que leve impressa na alma
O que as montanhas me inspiraram.
[Biela-Voda (Eslováquia), 1938].

NAS FOGUEIRAS DA GUERRA
Nas fogueiras da guerra, no incêndio, na queimada,
Dias tensos que o sangue sente bem,
Aqui estou com a minha pequena lanterna,
Procurando, procurando alguém.

As chamas do incêndio abafam minha luz,
O fogo me ofusca e não consigo ver;
Como olhar, observar, saber, intuir,
Quando na minha frente ele estiver?

Dê um sinal, Senhor, uma marca em sua fronte,
Para que no fogo, queimada e no sangue também,
Eu reconheça o brilho puro e eterno,
Como o tenho buscado: alguém.
[11 de outubro de 1940].

ÀS MÃES DA DIÁSPORA
Um dia e mais outro, uma semana ou duas,
Um ano ou década - esperar
Uma carta, uma linha ou até uma letra chegar.

Incontáveis as noites
Passadas sob os açoites
De imagens sonhadas com pavor.
Esconder num vasto mar
De sangue, de pesar,
Uma lágrima.
Que podemos responder deveras?
Um olhar, uma palavra apenas:
Mãe!
[18 de maio de 1942]. 

SEMENTE
Uma semente caiu, plantou-se, um amarelado grão,
Não entre as rochas, nem sobre a calçada, no chão.
Acolha-o - com sua camada de pó escuro,
Proteja-o do sol quente, do inverno duro,
Semente de vida encerrada em casca.
Segredo eterno, grânulo, gota, lasca,
Esperando sua deixa, na terra apertada ele vigia,
Por um sinal de primavera, raio de luz, sol, dia.
[24 de dezembro de 1942].

UM— DOIS — TRÊS
Um —Dois—Três... oito de extensão,
Dois passos é a largura da minha cela na prisão...
A vida paira sobre mim como uma interrogação.

Um—Dois—Três... mais uma semana, talvez,
Ou quem sabe eu ainda esteja aqui no fim do mês,
Mas sinto que a morte se aproxima com rapidez.

Eu podia ter feito vinte e três anos em julho.

O que é mais precioso, apostar decidi.
Dados foram lançados.
Perdi.
[Budapeste, 20 de junho de 1944].

A DANÇA DOS MINUTOS
A luz das lanternas empalidece na rua,
No céus, como brasa, as estrelas seguem queimando.
No meu coração uma nova esperança se acentua,
Pelo caminho da vida continuo vagando.
Ao meu redor, numa fila oculta ao olhar,
Surgem os momentos, numa roda a dançar
Um clamor e um êxtase vindos do além;
Eu os observo com um pouco de susto,
E. curiosa, por fim lhes pergunto,
O que, dentro de si, escondem tão bem?

Uns são a imagem da pura alegria,
Outros manifestam amargura sombria.
Um, carinhoso, só mostra afeições,
O outro se gaba de quebrar corações.

Todos se vão, outros logo aparecem,
São todos distintos, porém se parecem,
E esta animada cadeia continua,
Até o dia em que desapareça a lua.
Eles vêm sem cumprimentar,
E se vão sem se importar,
Flutuam sempre em silêncio absoluto,
Rumo ao infinito dissoluto.
[Fevereiro de 1937].

Sobre Hanna Senesh

[In Diários, Poesias, Cartas, Organização e Tradução do Hebraico, Inglês e Espanhol de Frida Milgrom, Tordesilhas, São Paulo, 2011].



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