sexta-feira, 20 de junho de 2014

Rui Costa

PARQUE DA CIDADE
o cão é uma extensão da floresta,
foi posto ali para compensar o nosso desprezo
por mapas e satélites que nos indicam sempre
uma saída. já não podemos perder-nos na floresta
com celulares no bolso, e seria tão bom que pudéssemos
amar-nos também assim, com o frio da noite a roer-nos os
ossos e a fome a disputar a atenção das nossas bocas, desalojados
definitivamente do mundo.
deixámos em casa os produtos da tecnologia. levámos apenas os nossos
corpos, sabendo que há dez mil anos que não os sujeitamos aos necessários
upgrades. os teus pés não doíam nos meus sapatos, e a minha impaciência
entretinha-se com o teu pescoço.
quando a trilha escureceu eu comecei a acreditar.
dissolvia-se a memória das casas no último verde tocado
pelo sol. um inocente segundo passo separava-nos da dignidade
do assombro. em breve estaríamos perdidos, amarrados a um
labirinto maior que todos os nossos sonhos. morreríamos abraçados, lindos,
e todos os amantes da História teriam inveja de nós.
Mas eu esquecera-me que neste país algumas pessoas constroem
casas no meio de florestas públicas como a floresta da Tijuca.
Privilégios herdados, que são o fruto de histórias feitas
com armas menos ingénuas do que as nossas, meu amor.
E os dentes do cão que corria para nós pareceram-me grandes como
as estratégias dos homens que me vencem na política.
Quer dizer, tive medo.
Toda a minha concentração foi usada na criação de um
semblante calmo, de um corpo estável, e quando tu te escondeste
atrás de mim e me agarraste as costas, eu nem sequer tremia.
Conclusão: não nos perdemos na floresta, como eu queria, mas também
não fomos devorados pelo rottweiller de olhos brilhantes.
A vida tem destas coisas. Tem muitas coisas destas.
Regressámos pela mesma trilha ao centro da cidade, jantámos,
tomámos, café, e só não morremos abraçados para sempre
porque às 8 horas em ponto da noite de domingo um ónibus te levaria,
com excessos de ar condicionado, da (nossa) eterna cidade do Rio de Janeiro.

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