quinta-feira, 24 de julho de 2014

Fernando Sernadas

POEDRAS
A linguagem é um cesto de
Arrecadação dos pedaços
Não um meio de organização do caos
E por isso as leis da poesia são as da física
Pega-se numa pedra e o poema nasce
Do equilíbrio entre o peso das pedras
E o jorro do sangue
E dentro do caos em permanência
Muda-se a História quando esse equilíbrio se quebra
Pega-se numa pedra
Pelo peso e rugosidade se julga
A eficácia da pedrada
E assim se multiplicam as pedras
E desvanecem as palavras

POEMA PRENSADO
Outras vezes é o apressado das asas na despega
O empenho científico em que
A caligrafia se não entenda
Uma ave caminhando na areia
Nesse espaço criativo e indiferente
Entre o tinteiro do mar
E a teimosia do vento

Fernando Sernadas, 19/1/2014

AS RUAS DE DETROIT
Ninguém passa nas ruas de Detroit
O futuro da cidade é agora
Desfeito naquilo que se alveja deste lado
Algo que rebenta como promessa cumprida
Mas tendo como fisga a matéria sem forma
E os dedos do oleiro de onde nasce o vaso

São frias as noites nas ruas de Detroit
Como casa estroncada a caminho do vento
Ou aldeia saqueada pelos próprios morantes
Numa via de um sentido onde o regresso é mentira

Algo caminha em Detroit imperceptível
Algo mina Detroit por dentro cegamente
Lombriga ondeando nas artérias da fuga
Ou bicho de fruta a salvo da fome alheia

Fernando Sernadas, 17/1/2014

POEMA ESGOTADO
A face do ser é uma página em branco
De não chegar para a vida
Plantar árvores nas margens da dor
Nenhuma fornalha redime a sombra ao fim do dia
Nenhum sorriso ilumina
O olho atento da ave antes da morte
Mesmo sabendo que esse olho
É a porta de saída de tudo

Uma face humana é o espelho do desentendimento
Uma ideia humana é o lugar da luz de todo desentendimento
Só a ave sabe o mundo inteiro por fora
Quando fazer parte de algo é a cegueira iluminada
Como quem desfaz o tecido por um fio solto
E cai o passado às mãos como um fruto podre
E se esgota a palavra de serem velozes as nuvens

Fernando Sernadas, 15/1/2014.


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