sexta-feira, 11 de julho de 2014

Murilo Mendes

O OVO
O ovo é um monumento fechado, automonumento; plano-piloto, realizado agora, do germe inicial da criação.
A exemplo da torre de Pisa, o ovo não costuma sustentar-se em pé. Ninguém ignora que a torre gosta de emigrar durante a noite. De resto, ela subsiste somente porque amparada por uma pena num quadro de René Magritte.
O mesmo pintor em outro quadro Les vacances de Hegel mostra um guarda-chuva aberto: em cima pousa um copo contendo um líquido. Evidentemente todos os observadores sofrem uma ilusão de óptica, trocando o copo por um ovo, de resto mais vizinho ao pensamento do filósofo.
O ovo, objeto concreto de alto coturno, caríssimo, quase inacessível: diamante do pobre.
                                                                       *
No meu tempo de infância, indo a noite alta de dois metros, eu já não ouvia mais o tique-taque do relógio; antes, o pulsar do ovo na sua gema, nunca sua clara.
Num tempo ainda mais recuado eu tinha medo do ovo. O medo: confere-nos uma téssera de identidade, fazendo-nos enfrentar algo de real, o próprio medo. O medo é o ovo da aventura posterior.

[In Poliedro, in Poesia Completa e Prosa, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p. 995]

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